Que Nada!!!

Um Blog sem noção para pessoas de fino trato!

26 de setembro de 2009

O Dilema de José Serra e do PSDB

Jonas Trali

Por mais que digam que o picolé de chuchu, Geraldo Alckmin, forçou sua candidatura para a presidência da república em 2006, o fato é que José Serra havia percebido que Lula não caira como pensavam que cairia por conta dos escândalos do mensalão e sentiu que não ganharia aquela eleição. Mas e hoje? Hoje Serra começa a ver que o barco está afundando mais uma vez. Parece que o bico do tucano pesou de novo. Mesmo sendo o nome de destaque nas pesquisas em que vem se mantendo na ponta, ele continua caindo e hoje conta com apenas 34% das intenções de voto (já teve quase 50%). Isso leva a crer que possivelmente José Serra não irá abandonar o comando no governo de São Paulo e se candidatar a um cargo de presidente da república numa eleição que está se tornando cada vez mais incerta. Vão empurrar o Aécio? O problema para o PSDB é que o Aécio não aguenta a Dilma. A não ser que aconteça um tsunami para os lados do Planalto nos próximos doze meses, coisa também improvável. Então vejamos: se o Serra não vai e o Aécio não ganha, Dilma possivelmente (sendo a candidata do governo) subirá a rampa do Planalto para tomar a posse em janeiro de 2011, deixando, assim, a oposição sem previsões de tirar o cargo do PT, já que, mesmo com um mal-sucedido governo Dilma, Lula poderia voltar em 2014. E se Dilma vinga como presidente, Lula pode voltar em 2018 e ocupar o cargo até 2026. Ou seja, acabaria com a oposição. Praticamente uma geração inteira de postulantes ao cargo de presidente seria varrida do mapa brasilis.

Consta nos blogs da vida que a cúpula do PSDB, ao ser informada sobre a última pesquisa CNI/Ibope, se reuniu em caráter de urgência com o presidente do Ibope Carlos Augusto Montenegro para tentar saber o que estava acontecendo. A partir dessa reunião algumas decisões foram tomadas para garantir a vitória em 2010. E para garantir que a vitória não escape, o PSDB quer que Serra desça do muro, assuma de vez que é candidato, apareça em programas do PSDB a partir de outubro e em novembro começará uma campanha para a desconstrução da imagem de Dilma – imagem essa que ela ainda nem tem, diga-se.

O PSDB está vivendo momentos decisivos e nada saborosos, já que se Serra fica no governo e Aécio sai candidato à presidência o picolé de chuchu, Geraldo Alckmin, que já estava contando ser governador do maior estado do país, fica de novo sem ter para onde ir. Ou seja, mais um dilema.

Mesmo tentando resolver o problema, verificamos que ele está cada vez ficando maior, por exemplo: fosse eu da cúpula do PSDB arriscaria no partido e não nos homens. Lançaria Serra como candidato à presidente, já que o governo de São Paulo está quase garantido nas mãos de Alckmin.

Mas, porém, contudo, entretanto, todavia, no entanto, os partidos são constituídos de seres humanos e o fato é que Serra, que ainda insiste na ideia de que Geraldo Alckmin se impôs demais em 2006, não quererá ver mais uma vez o capricho deste triunfar. A razão também é simples: Serra perdendo a presidência em 2010, Alckmin ganhando o governo de São Paulo e Aécio provavelmente se elegendo senador, quem fica sem ter para onde ir é justamente o nome de maior destaque entre os tucanos nos dias atuais, José Serra.Haja estratégia, haja marqueteiro, haja munição.

Doravante veremos os desdobramentos de um episódio da política nacional cujos contornos já estão ganhando ares de decadência, porque a situação está difícil, muito difícil, muito mais que muito difícil.

criado por marcblues72    17:33 — Arquivado em: Política

25 de setembro de 2009

YES NÓIS PODE!

Marcelo Rezende

E o PT contratou nada mais, nada menos que Ben Self pra ser o marqueteiro da campanha presidencial de 2010! É o camarada do “Yes we can!”. Pra quem ainda não se ligou, ele encabeçou a campanha de Barack Obama. Grana não deve ser problema pro partido, já que uma campanha dessa não se paga com dinheiro de pinga. Em entrevista ao site Terra, Self confirmou “Estamos trabalhando com o partido agora a fim de ajudar a fazer planos para a próxima eleição presidencial.”. Será que a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Roussef tá bonita na fita?

É… nóis pode!

Quer saber mais

http://noticias.terra.com.br/brasil/noticias/0,,OI3996893-EI7896,00-Marqueteiro+de+Obama+confirma+trabalho+com+o+PT+para.html

criado por marcblues72    10:40 — Arquivado em: Sem categoria

23 de setembro de 2009

Honduras - Por uma mínima moralidade

Jonas Trali

Segundo dizem os defensores do golpe em Honduras, o presidente Manoel Zelaya atentou contra a constituição do país ao prorpor mudanças na…? constituição. E há, em diversas partes do globo terrestre, mentes que concordam com essa tese. Absurdo, obviamente. Atentado contra a constituição seria impor uma lei que fosse de encontro a ela, não a proposta de um referendo que permitisse sua mudança.
Sem me estender demais, digo que o abrigo da embaixada brasileira a Zelaya foi um golpe de mestre. Por que? Porque o assunto já estava esmorecendo. Um golpe (de novo, não) já estava se estabilizando na América Latina e poderia, sim, evidentemente, dar margem para a aplicação de outros mais. O Brasil não permitiu que isso acontecesse, mesmo que isso aconteça (sei que entenderam), uma vez que conseguiu fazer com que a polêmica em torno do tema se reacendesse e que o mundo pudesse voltar novamente os olhos para aquele país. No momento, mesmo que o golpe se consume, encontra-se diante de um dilema de grandes proporções e o presidente de fato de Honduras, Roberto Micheletti, não poderá tomar decisões muito mais arbitrárias do que as que já esta tomando, pois sabe que seu país está sob a intensidade de milhares de holofotes. Podemos criticar Zelaya; o golpe? Sim, podemos. Mas não podemos nos deixar levar pelo discurso fácil da mídia e criticarmos uma atitude corajosa do Brasil que busca, pura e simplesmente, restabelecer ao poder um presidente legitimamente eleito pelo povo e que somente pelo povo poderia ter sido deposto.

criado por marcblues72    19:33 — Arquivado em: Sem categoria

Em boca fechada não entra mosca…

Marcelo Rezende

Ontem Mato Grosso do Sul foi notícia em toda mídia brasileira. Dessa vez a “manchete” não foi apreensão de drogas, aparição de animais silvestres em vias públicas ou conflitos de fazendeiros com  o movimento dos sem terra. O governador André Puccinelli proferiu ofensas ao ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc. Os termos chulos do governador: “viado” e “maconheiro” estamparam sites, jornais e rendeu até Jornal Nacional.

Não é nenhuma novidade Puccinelli falar mais do que deve e, porteriormente, virar notícia. Já tratou a cena política do estado como “Motel Político”, mandou a PM “atirar em qualquer suspeito” e tantas outras falas polêmicas que nem vale a pena ficar lembrando aqui.

Mais lamentável ainda é ver o governador convocar entrevista coletiva pra tentar justificar o injustificável. Puccinelli disse que as declarações foram dadas em tom de brincadeira e que também não quis ofender os homossexuais. Brincadeira sem graça, convenhamos.

Hoje ao sentar aqui a frente do computador fiquei pensando, pensando e acho que não tenho muito o que escrever. Espero de coração que o governador brinque menos e trabalhe mais. Que seu autoritarismo e falta de decoro divulgado em toda mídia sirva pelo menos para que ele coloque a mão na consciência e pense duas vezes antes de sair falando o que quer.

Fica  aí uma frase do grande pacifista Mahatma Ghandi que falará por mim e por todos aqueles que não compactuam com a política das falácias vazias e descabidas:

“Aqueles que têm um grande autocontrole, ou que estão totalmente absortos no trabalho, falam pouco. Palavra e ação juntas não andam bem. Repare na natureza: trabalha continuamente, mas em silêncio.”

criado por marcblues72    11:37 — Arquivado em: Sem categoria

21 de setembro de 2009

Tem coisas que não mudam com o passar dos anos.

Marcelo Rezende

Uma charge é muito mais que um simples desenho. Para sacar uma charge é necessário o conhecimento de um conjunto de dados e fatos contemporâneos ao momento específico de um determinado acontecimento, isso para que role uma relação discursiva entre o produtor e o receptor da charge.  É preciso estar antenado ao que se passa no país e no mundo, para que esse pequeno quadrinho passe a mensagem de forma satisfatória. Arnaldo Angelí Filho é um gênio nessa arte. Chargista precoce começou trabalhando aos 14 anos na revista Senhor. Em 1983 criou a revista “Chiclete com Banana”, a maior contribuição aos quadrinhos adultos brasileiros até hoje. Com personagens imortais como Rê Bordosa, Bob Cuspe, Wood & Stock entre outros, a “Chiclete” chegou a 110 mil exemplares vendidos numa única edição . Hoje, Angelí trabalha na Folha de São Paulo onde nos brinda com charges geniais. Essa que estou reproduzindo aqui no blog foi uma homenagem ao dia das mães publicada na Folha de São Paulo em 09 de Maio de 1993. Passados dezesseis anos a tira é tão atual que poderia ser publicada em qualquer jornal na data de hoje. Algumas figuras da “cena política” mudaram, outras permanecerão por aí por muito tempo. Certas coisas não mudam nunca. Ainda bem que temos o Angelí pra tirar onda de tudo isso.

criado por marcblues72    11:22 — Arquivado em: Sem categoria — Tags:, , ,

18 de setembro de 2009

Paulo Francis faz falta…

Marcelo Rezende

Eu confesso. Sou fã do Paulo Francis. Eu ainda era um moleque que não entendia muito bem como o mundo funcionava, mas quando ele aparecia na TV eu parava tudo que estava fazendo pra ver aquela figura com jeito peculiar de apresentar  seus comentários. A voz arrastada e gravíssima, quase um bêbado de fim de noite.  Aquilo fazia minha cabeça. Pra um moleque curioso aquilo era o grande momento da televisão brasileira. Francis foi genial. Tinha textos ácidos. Ousou no Pasquim e escreveu “Um homem chamado porcaria” uma singela homenagem a nada mais nada menos que Roberto Marinho. Francis foi da esquerda, foi elitista e acabou seus dias em Nova Iorque (lugar que ele amava) trabalhando pra Rede Globo do “homem chamado porcaria”.

Comentando uma prisão ocorrida no regime militar Francis atestava a pouca inteligência do militar que o interrogava. Questionado quanto a assinaturas em uma “monção” ele negava ininterruptamente. Até que já sem paciência com o interrogatório interminável, fechou com maestria a parola:

“Meu senhor. Não assinei nenhuma monção. Monção é um fenômeno pluviométrico. Eu assinei uma moção!”

Esse era o Paulo Francis. De alguma forma me influenciou a gostar tanto de jornalismo. Fica aqui a homenagem ao homem que muitos odiaram, alguns amaram, mas que com certeza era um grande diferencial no jornalismo brasileiro.

Francis trabalhando

criado por marcblues72    11:44 — Arquivado em: Sem categoria

16 de setembro de 2009

Política ó Política!

Marcelo Rezende

De 10 a 13 de Setembro de 2009 aconteceu no Shopping Campo Grande a Semana de combate ao câncer de intestino, um assunto muito sério, porém ao ver as fotos do evento não pude deixar de dar boas risadas ao notar as autoridades de MS

Autoridades saindo do "intestinão".

Autoridades saindo do "intestinão". Foto de Weder Paes

saindo do “intestino gigante” que lá se encontrava exposto para os visitantes. Como pra bom entendedor uma vírgula é frase inteira segue aí a foto para todos que quiserem ver. É de autoria do acadêmico Weder Paes do curso de jornalismo da Anhanguera Uniderp, ele sequer se deu conta de ter tirado uma foto digna dos tempos áureos de Pasquim. Na minha opinião ficou genial. Parabéns ao Weder, que mesmo sem ter a intenção me proporcionou uma tarde de risadas.  Espero que para vocês também!

criado por marcblues72    13:32 — Arquivado em: Sem categoria

15 de setembro de 2009

Em casa de ferreiro espeto é de pau

Marcelo Rezende

A frase do título é bem antiga, mas nunca esteve tão atual em Mato Grosso do Sul, como agora, após a publicação de um ranking do Ministério da Saúde sobre a qualidade do sistema público de saúde oferecido aos brasileiros, nos diversos estados da União.

A Constituição é clara: devem ser destinados à saúde, pelos estados, no mínimo, doze por cento de seus recursos próprios. Dos 27 estados da Federação, apenas onze cumprem o que a emenda constitucional 29 estipula.

A nós, ‘ilustres’ sul-mato-grossenses e desconhecidos, restou o vigésimo lugar de um ranking desabonador, e isso porque o governador do MS é médico de formação. No nosso retrovisor ficaram os estados do Maranhão, Goiás, Ceará, Piauí, Paraíba, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Vale lembrar que a presidente interina do Conselho Nacional dos Secretários de Saúde, Beatriz Figueiredo Dobashi, é a secretária de Saúde de Mato Grosso do Sul e foi ela quem saiu em defesa do estado, no jornal Folha de São Paulo, alegando que grande parcela do SUS (Sistema Único de Saúde) foi municipalizada nos anos 90, o que teria levado todos a reduzir investimentos na época. Seria agora “a retomada”, afirmou a doutora em entrevista para a Folha de SP.

Muitos estados se defenderam argumentando que a legislação não é clara em relação à aplicação dos recursos, e por conta disso, seriam embutidos na prestação de contas gastos diversos, como merenda, uniformes da polícia militar e, até programas de financiamento da casa própria.

A punição a quem descumpre a Carta Magna simplesmente não existe. Segundo o presidente do Conselho Nacional de Saúde, Francisco Batista Júnior, os Estados têm “deliberadamente” deixado de cumprir o mínimo fixado pela Constituição. “Sempre ouvimos os diversos atores (governo e congressistas) dizendo que são a favor da regulamentação da emenda 29, mas isso nunca acontece. É constrangedor”, afirmou recentemente para a imprensa o presidente do conselho.

Para o governador do estado e, médico, André Puccinelli, os problemas na área da saúde nunca terão solução perfeita, sendo utopia o conserto de tudo que há de errado por aí.

Mas… Que tal o MS cumprir com, pelo menos, os doze por cento determinados pela Constituição, ao contrário dos pouco mais de nove por cento (9,44 % para ser exato) atuais? Seria um bom começo.

criado por marcblues72    12:21 — Arquivado em: Sem categoria

4 de setembro de 2009

Vida

A vida tem seus momentos de felicidade e beleza.
Mas tem também
me matado demais ultimamente.

Talvez eu tenha me suicidado demais,
visto e ouvido demais,
demais trincado entre os dentes
esses dias desiguais.

Mas enquanto o tempo não parar de me resistir,
vou caindo,
chorando
e levantando e sorrindo e,
ao mesmo tempo em que entrando,
saindo
da vida,
que passa por mim como um sopro,
passa por mim como uma noite,
passa por mim como um rio,
como um amontoado de perdas
- insubstituíveis e inseparáveis perdas.
Que passa deixando seqüelas eternas.

Vou procurar extrair de mim
um fim
que justifique os intermináveis caminhos por que passo.

Mas enquanto o tempo embalar seu pêndulo
e embaçar o vidro da janela
e uivar pra lua cheia e esticar as mãos pro sol
vou chovendo, cantando, resistindo,
vaiando, aplaudindo,
chutando baldes e latas e paus de barracas.
Colhendo matérias para reciclar
nalgum tormento ou nalgum hino.

E vou sonhando
- porque a vida precisa de sonhos pra nos suportar -,
indo de samba de trem de vinho
para estações reluzentes,
pras oficinas do diabo…

Vida,
eu, que a canto aos outros,
para reinventá-la menos amarga
que eu,
que às vezes penso que
melhor seria ter nascido
muito antes do ontem em que nasci.
E já ter ardido todas as dores que ainda vou sentir,
sorrido tudo o que tenho pra sorrir,
amado tudo o que amo e virei a amar,
esvaziado tudo o que tenho pra odiar,
e que já tivesse inventado todas estas ilusões
que sei que não vou usar.
E que já tivesse escrito,
ou desistido de escrever
- o que não sei se posso,
todos estes enfermos poemas.

Melhor seria que eu já tivesse exercido
meu direito de vida - de ir e de vir –
em guerra e em paz.
e que já tivesse estivesse em corrosão,
esquecido de todos os que tanto me chatearam
com suas existências urgentes e fascinantes,
que minha impaciência não conseguiu afugentar.

Melhor seria já ter saído dessa máscara,
e que já tivesse
fugido
desses aluguéis
desses empregos, desses desempregos
desses salários
desses impostos
desse direito de permanecer calado
desses SPC´s e Serasas
desses 11s de setembro
- pessoais e intransferíveis…
Desse teatro.

Melhor seria que eu já tivesse
gastado essa carne combalida pelo medo,
que já tivesse cansado
de me postar diante dessas portas fechadas,
barba feita, bem penteado,
estômago vazio.
Acotovelado, espremido.
Cumprindo religiosamente os manuais da boa conduta,
que rezam minha submissão.

Manuais que aceitamos de bom grado
por vermos nas suas linhas
legítimo atestado de nobreza.

E no respaldo desses costumes
praticamos nossos remorsos,
e traçamos nossos arrependimentos em tépidos cotidianos,
e ambientes capazes de suavizar o abalo produzido pela sufocação de nossas vidas fechadas.
Capazes de diminuir o corte
dessa dor ensurdecedora
que desmancha o sorriso de qualquer bronze.

criado por marcblues72    20:34 — Arquivado em: Sem categoria

Estranhas projeções da perturbação da mente

Numa sexta-feira de abril do ano de 2007 morreu um amigo meu da época da infância. Conforme o tempo foi passando deixamos, por assim dizer, de ser amigos, uma vez que as contingências do destino nos obrigaram a, cada qual, seguir o seu caminho pela vida. Para não estender este relato, só digo que não foi a nossa uma amizade tão feliz assim, como sói acontecer entre as crianças. Ele era muito mais esperto o que fazia com que, comumente, me trapaceasse nas brincadeiras e triunfasse sempre no final das nossas batalhas.

Com o tempo fui recebendo notícias desse amigo, por conta de um problema que ele tinha na cabeça e que, por mais que fosse assistido, se agravava.

Certa vez, quando fiquei sabendo que ele se encontrava muito mal, resolvi visitá-lo. Peguei minha bicicleta e, com muito custo, encontrei sua casa, que ficava no mesmo endereço de quando éramos pequenos. Mas ao chegar lá soube pelos vizinhos que seu estado piorara de tal forma, que ele teve de ser enviado às pressas para São Paulo.

Ele retornou de São Paulo, mas eu não encontrava tempo para a visita que queria fazer. Fiquei sabendo que seu mal progredira a ponto de o impedir de continuar trabalhando, pois que seu corpo constantemente se paralisava por completo.

A verdade é que, infelizmente, eu nada podia fazer para ajudá-lo e pensava até que ele pudesse piorar caso me visse. Isso talvez o remeteria à nossa infância e poderia fazê-lo sofrer com a recordação dos dias em que corria desimpedido pelas ruas do bairro.

Os anos foram passando, até que fiquei sabendo que esse amigo estava nos momentos finais de sua vida. Liguei para minha namorada, avisando que naquele dia não nos veríamos, pois eu precisava visitá-lo urgentemente. Mas as mulheres sempre querem estar presentes nos momentos cruciais da vida de um homem e ela insistiu para que eu a levasse. Assenti.

Cheguei do trabalho e liguei para minha namorada. Como tive de buscá-la em seu serviço, minha visita sofreu um atraso de pelo menos trinta minutos. Isso porque nessa época eu já tinha uma moto. Novamente tive dificuldades em encontrar o endereço e, quando, enfim, cheguei à casa, chegou também, no mesmo momento, uma ambulância. Dentro da casa uma mulher gritava “volta amor, não faça isso comigo, não vá embora. Volta, pelo amor de Deus”.

Por mais que soubesse que aquela visita não me faria bem, não imaginei que pudesse ser tão trágica. Cheguei no exato momento em que meu amigo morria. Se tivesse chegado dez minutos antes, poderia, talvez, ter trocado com ele umas últimas palavras. Ele estava estirado no chão e sua mulher, debruçada sobre seu peito, continuava a chorar e a implorar para que ele “voltasse”.

Por um momento, uma fúria se apossou de mim contra minha namorada, que fora a responsável pelo meu atraso, mas me contive. Ademais, de nada adiantaria questionar o que quer que fosse; com o que sentei no chão e fiz a única coisa que podia fazer naquele momento, que era chorar.

Depois de me indignar com a vida e com as suas brincadeiras sádicas, me levantei e fui ver se falava com alguém da casa. O pai do meu amigo evidentemente que não me reconheceu e ficou surpreso quando eu disse quem eu era. Ele pensou que eu havia sido avisado sobre a morte, ainda assim estranhando que tivesse chegado tão rápido. Eu achei melhor não explicar nada.

Lembro-me que me senti tão mal, e tão sem saber o que fazer, que não consegui permanecer na casa por muito mais do que vinte minutos.

Fomos para casa, eu e minha namorada, e lá eu fiquei, sentado no sofá, como que mesmerizado, me esforçando para, simplesmente, não pensar.

Por volta das nove horas da noite fui levar minha namorada à sua casa. No meio do caminho, descíamos por uma rua escura, quando um motoqueiro passou pela avenida transversal. Minha namorada perguntou se aquele, na moto, era seu irmão. Respondi com outra pergunta, pois não havia o mínimo sentido naquela suspeita. Ela respondeu que estranhara o modo como ela passara, lentamente, e olhando para o nosso lado. Continuei sem ver naquilo nada de mais; e assim seguíamos.

Quando cheguei na avenida – esta bastante iluminada –, aconteceu um fato incompreensível. O motoqueiro estava parado na esquina, embora o sinal estivesse aberto. Lembro-me que ele começou a se inclinar de um modo anormal, inumano, olhando na nossa direção, enquanto nos aproximávamos lentamente. Eu olhava para o sinal verde e para o motoqueiro, sem me resolver se acelerava ou verificava o que estava acontecendo com ele. Ele foi se inclinando mais. Parecia precisar de ajuda. Mas podia ser também um assaltante. Eu não sabia o que fazer, olhava o sinal, como que na esperança de que ele estivesse fechado, o que justificaria o motoqueiro parado, mas não, estava ali, verde, reluzentemente verde! Mais verde que o habitual. Quase amarelo de tão verde. E o motoqueiro, ali, parado, cada vez se inclinando mais. Dobrando seu corpo de uma maneira animalesca, como nenhum ser normal poderia fazer. Parecia estar passando mal, precisando de um auxílio para não cair. Ao mesmo tempo, parecia não possuir vértebras. Tudo se passou muito rápido, mas as impressões fizeram o tempo se esticar naquela efêmera sequencia de acontecimentos.

Conforme nos aproximávamos, eu buscava ver a expressão do rosto do motoqueiro. Mas não conseguia ver nada dentro do seu capacete. Quando finalmente ficamos lado a lado, me convenci de que não se tratava de um ser humano normal. Talvez não se tratasse sequer de um ser humano. Não tinha nenhum rosto dentro daquele capacete. Nada. Não tinha porra nenhuma. Quase entrei em pânico. Acelerei o quanto pude, sem me livrar da impressão de que estávamos sendo seguidos por aquela criatura diabólica. Mas não estávamos.

Deixei minha namorada em casa. Cheguei até a minha, contei a história à minha irmã e comecei a me desmanchar em lágrimas. Uma horrível sensação havia se apoderado de mim. Minha irmã pensou que eu estivesse sob os efeitos do trágico acontecimento daquele dia e procurou me acalmar. Hoje até eu penso que se tratou disso mesmo, que eu estava impressionado com o fato de ter chegado à casa de meu amigo no instante mesmo em que ele morria. Mas não entendo como tal perturbação pode ter materializado um episódio tão grotesco como aquele. Pode ser que a mente humana seja capaz de projetar seus horrores, quando estes se tornam mais latentes, de modo que outras pessoas possam ver o que a nossa imaginação perturbada engendra.

Pode ser. Tudo pode ser.

criado por marcblues72    17:29 — Arquivado em: Sem categoria
« Posts mais novosPosts mais antigos »
Report abuse Close
Am I a spambot? yes definately
http://quenada.blog.terra.com.br
 
 
 
Thank you Close

Sua denúncia foi enviada.

Em breve estaremos processando seu chamado para tomar as providências necessárias. Esperamos que continue aproveitando o servio e siga participando do Terra Blog.