4 de setembro de 2009
Vida
A vida tem seus momentos de felicidade e beleza.
Mas tem também
me matado demais ultimamente.
Talvez eu tenha me suicidado demais,
visto e ouvido demais,
demais trincado entre os dentes
esses dias desiguais.
Mas enquanto o tempo não parar de me resistir,
vou caindo,
chorando
e levantando e sorrindo e,
ao mesmo tempo em que entrando,
saindo
da vida,
que passa por mim como um sopro,
passa por mim como uma noite,
passa por mim como um rio,
como um amontoado de perdas
- insubstituÃveis e inseparáveis perdas.
Que passa deixando seqüelas eternas.
Vou procurar extrair de mim
um fim
que justifique os intermináveis caminhos por que passo.
Mas enquanto o tempo embalar seu pêndulo
e embaçar o vidro da janela
e uivar pra lua cheia e esticar as mãos pro sol
vou chovendo, cantando, resistindo,
vaiando, aplaudindo,
chutando baldes e latas e paus de barracas.
Colhendo matérias para reciclar
nalgum tormento ou nalgum hino.
E vou sonhando
- porque a vida precisa de sonhos pra nos suportar -,
indo de samba de trem de vinho
para estações reluzentes,
pras oficinas do diabo…
Vida,
eu, que a canto aos outros,
para reinventá-la menos amarga
que eu,
que às vezes penso que
melhor seria ter nascido
muito antes do ontem em que nasci.
E já ter ardido todas as dores que ainda vou sentir,
sorrido tudo o que tenho pra sorrir,
amado tudo o que amo e virei a amar,
esvaziado tudo o que tenho pra odiar,
e que já tivesse inventado todas estas ilusões
que sei que não vou usar.
E que já tivesse escrito,
ou desistido de escrever
- o que não sei se posso,
todos estes enfermos poemas.
Melhor seria que eu já tivesse exercido
meu direito de vida - de ir e de vir –
em guerra e em paz.
e que já tivesse estivesse em corrosão,
esquecido de todos os que tanto me chatearam
com suas existências urgentes e fascinantes,
que minha impaciência não conseguiu afugentar.
Melhor seria já ter saÃdo dessa máscara,
e que já tivesse
fugido
desses aluguéis
desses empregos, desses desempregos
desses salários
desses impostos
desse direito de permanecer calado
desses SPC´s e Serasas
desses 11s de setembro
- pessoais e intransferÃveis…
Desse teatro.
Melhor seria que eu já tivesse
gastado essa carne combalida pelo medo,
que já tivesse cansado
de me postar diante dessas portas fechadas,
barba feita, bem penteado,
estômago vazio.
Acotovelado, espremido.
Cumprindo religiosamente os manuais da boa conduta,
que rezam minha submissão.
Manuais que aceitamos de bom grado
por vermos nas suas linhas
legÃtimo atestado de nobreza.
E no respaldo desses costumes
praticamos nossos remorsos,
e traçamos nossos arrependimentos em tépidos cotidianos,
e ambientes capazes de suavizar o abalo produzido pela sufocação de nossas vidas fechadas.
Capazes de diminuir o corte
dessa dor ensurdecedora
que desmancha o sorriso de qualquer bronze.
criado por marcblues72
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