4 de setembro de 2009
Estranhas projeções da perturbação da mente
Numa sexta-feira de abril do ano de 2007 morreu um amigo meu da época da infância. Conforme o tempo foi passando deixamos, por assim dizer, de ser amigos, uma vez que as contingências do destino nos obrigaram a, cada qual, seguir o seu caminho pela vida. Para não estender este relato, só digo que não foi a nossa uma amizade tão feliz assim, como sói acontecer entre as crianças. Ele era muito mais esperto o que fazia com que, comumente, me trapaceasse nas brincadeiras e triunfasse sempre no final das nossas batalhas.
Com o tempo fui recebendo notícias desse amigo, por conta de um problema que ele tinha na cabeça e que, por mais que fosse assistido, se agravava.
Certa vez, quando fiquei sabendo que ele se encontrava muito mal, resolvi visitá-lo. Peguei minha bicicleta e, com muito custo, encontrei sua casa, que ficava no mesmo endereço de quando éramos pequenos. Mas ao chegar lá soube pelos vizinhos que seu estado piorara de tal forma, que ele teve de ser enviado às pressas para São Paulo.
Ele retornou de São Paulo, mas eu não encontrava tempo para a visita que queria fazer. Fiquei sabendo que seu mal progredira a ponto de o impedir de continuar trabalhando, pois que seu corpo constantemente se paralisava por completo.
A verdade é que, infelizmente, eu nada podia fazer para ajudá-lo e pensava até que ele pudesse piorar caso me visse. Isso talvez o remeteria à nossa infância e poderia fazê-lo sofrer com a recordação dos dias em que corria desimpedido pelas ruas do bairro.
Os anos foram passando, até que fiquei sabendo que esse amigo estava nos momentos finais de sua vida. Liguei para minha namorada, avisando que naquele dia não nos veríamos, pois eu precisava visitá-lo urgentemente. Mas as mulheres sempre querem estar presentes nos momentos cruciais da vida de um homem e ela insistiu para que eu a levasse. Assenti.
Cheguei do trabalho e liguei para minha namorada. Como tive de buscá-la em seu serviço, minha visita sofreu um atraso de pelo menos trinta minutos. Isso porque nessa época eu já tinha uma moto. Novamente tive dificuldades em encontrar o endereço e, quando, enfim, cheguei à casa, chegou também, no mesmo momento, uma ambulância. Dentro da casa uma mulher gritava “volta amor, não faça isso comigo, não vá embora. Volta, pelo amor de Deus”.
Por mais que soubesse que aquela visita não me faria bem, não imaginei que pudesse ser tão trágica. Cheguei no exato momento em que meu amigo morria. Se tivesse chegado dez minutos antes, poderia, talvez, ter trocado com ele umas últimas palavras. Ele estava estirado no chão e sua mulher, debruçada sobre seu peito, continuava a chorar e a implorar para que ele “voltasse”.
Por um momento, uma fúria se apossou de mim contra minha namorada, que fora a responsável pelo meu atraso, mas me contive. Ademais, de nada adiantaria questionar o que quer que fosse; com o que sentei no chão e fiz a única coisa que podia fazer naquele momento, que era chorar.
Depois de me indignar com a vida e com as suas brincadeiras sádicas, me levantei e fui ver se falava com alguém da casa. O pai do meu amigo evidentemente que não me reconheceu e ficou surpreso quando eu disse quem eu era. Ele pensou que eu havia sido avisado sobre a morte, ainda assim estranhando que tivesse chegado tão rápido. Eu achei melhor não explicar nada.
Lembro-me que me senti tão mal, e tão sem saber o que fazer, que não consegui permanecer na casa por muito mais do que vinte minutos.
Fomos para casa, eu e minha namorada, e lá eu fiquei, sentado no sofá, como que mesmerizado, me esforçando para, simplesmente, não pensar.
Por volta das nove horas da noite fui levar minha namorada à sua casa. No meio do caminho, descíamos por uma rua escura, quando um motoqueiro passou pela avenida transversal. Minha namorada perguntou se aquele, na moto, era seu irmão. Respondi com outra pergunta, pois não havia o mínimo sentido naquela suspeita. Ela respondeu que estranhara o modo como ela passara, lentamente, e olhando para o nosso lado. Continuei sem ver naquilo nada de mais; e assim seguíamos.
Quando cheguei na avenida – esta bastante iluminada –, aconteceu um fato incompreensível. O motoqueiro estava parado na esquina, embora o sinal estivesse aberto. Lembro-me que ele começou a se inclinar de um modo anormal, inumano, olhando na nossa direção, enquanto nos aproximávamos lentamente. Eu olhava para o sinal verde e para o motoqueiro, sem me resolver se acelerava ou verificava o que estava acontecendo com ele. Ele foi se inclinando mais. Parecia precisar de ajuda. Mas podia ser também um assaltante. Eu não sabia o que fazer, olhava o sinal, como que na esperança de que ele estivesse fechado, o que justificaria o motoqueiro parado, mas não, estava ali, verde, reluzentemente verde! Mais verde que o habitual. Quase amarelo de tão verde. E o motoqueiro, ali, parado, cada vez se inclinando mais. Dobrando seu corpo de uma maneira animalesca, como nenhum ser normal poderia fazer. Parecia estar passando mal, precisando de um auxílio para não cair. Ao mesmo tempo, parecia não possuir vértebras. Tudo se passou muito rápido, mas as impressões fizeram o tempo se esticar naquela efêmera sequencia de acontecimentos.
Conforme nos aproximávamos, eu buscava ver a expressão do rosto do motoqueiro. Mas não conseguia ver nada dentro do seu capacete. Quando finalmente ficamos lado a lado, me convenci de que não se tratava de um ser humano normal. Talvez não se tratasse sequer de um ser humano. Não tinha nenhum rosto dentro daquele capacete. Nada. Não tinha porra nenhuma. Quase entrei em pânico. Acelerei o quanto pude, sem me livrar da impressão de que estávamos sendo seguidos por aquela criatura diabólica. Mas não estávamos.
Deixei minha namorada em casa. Cheguei até a minha, contei a história à minha irmã e comecei a me desmanchar em lágrimas. Uma horrível sensação havia se apoderado de mim. Minha irmã pensou que eu estivesse sob os efeitos do trágico acontecimento daquele dia e procurou me acalmar. Hoje até eu penso que se tratou disso mesmo, que eu estava impressionado com o fato de ter chegado à casa de meu amigo no instante mesmo em que ele morria. Mas não entendo como tal perturbação pode ter materializado um episódio tão grotesco como aquele. Pode ser que a mente humana seja capaz de projetar seus horrores, quando estes se tornam mais latentes, de modo que outras pessoas possam ver o que a nossa imaginação perturbada engendra.
Pode ser. Tudo pode ser.
criado por marcblues72
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