6 de outubro de 2008
Subsolo (um poema em prosa)
Não concerto com refinamentos, delicadezas, sofisticações, elegâncias.
As carências me incompletam e as incertezas são o meu firmamento.
Alimento-me de preguiças, despedaços, impurezas, pecados, decadências, irrazões.
As corrosões e suas inconseqüentes ruínas, forjam-me ainda mais inacabado do que já sou.
E eu quero viver o mais inacabado possível,
pra morrer mais inacabado ainda
e me extraviar pelas minhas incompreensões.
Inacabando eu abro as possibilidades de devastação
que procuro na alma e na palavra.
Quero incapacitar meu cérebro para os talentos e aprimorá-lo em seus defeitos.
Quero explorar os desconexos desvãos da inconsciência,
percorrendo suas galerias tétricas, suas estreitezas ásperas,
seus subúrbios sombrios, seus acidentes, seus porões,
e navegar por suas ilimitações.
Em meio a mais densa neblina e ao mais intenso vendaval,
vou fazer um ritual apocalíptico que acordará minhas síndromes ignoradas
e erguerá o cenário perturbador que me há de abrigar dos costumes apropriados.
Flores fuliginosas
deslumbramentos pardos
montanhas bruxuleantes
incandescências retalhadas
pássaros perplexos
lágrimas opacas.
Com o que serei o profeta relapso de uma facção de apóstolos hereges
…
Nos labirintos do cérebro
quero assistir os conflitos deflagrarem-se
colidirem-se
e entrarem em curto
para fundição de novas eternidades.
Das matérias mais turvas
extrairei ácidos escaldantes,
dos quais aproveitarei somente a insensatez
para a conjugação de novos evangelhos.
Porque o homem só exerce sua condição irracional
se se tornar um mineiro de seu cérebro
e escavar seus pensamentos com voracidade.
Porque o homem é o seu Deus
e sua cabeça o grande mar onde provocar ondas gigantescas
e grandes rebentações.
Porque o Deus Deus implorado pelos pobres não existe
e precisamos materializar o amor.
Precisamos desagregar nossas sombras
para que se libertem dos nossos modos entediados;
precisamos atormentar nossas visões atrofiadas,
para assim enxergarmos as tragédias que traduzem nossas interpretações.
E então poderemos admirar o que as nossas descobertas devastaram na gente
e inventarmos os sóis que ilustrarão nossos novos escombros.
Precisamos plantar ventos desencontrados,
sacudir nossos lençóis
freáticos
e na hora da colheita, dançarmos no ventre das pânicas tempestades.
Precisamos despir a moral - depravá-la,
para que possamos valer a pena.
Hoje consigo pensar que vale a pena ser
Eu
que começo a valer a pena
– depois de todas as primaveras terem me escapado pelos vãos dos dentes.
E dos dedos.
Começam a me atrair as fachadas poluídas,
as intoxicações, os amontoamentos, as ferragens, as ferrugens, os abutres,
os abandonos.
Começa a me despertar fascínio a anárquica urdidura que determina os limites do cotidiano.
Começo a exercer o milagre de uma inferioridade soberana
…
Abrigo no pensamento corpos que não me pertencem
e interpreto seus absurdos.
Depois de ouvir os aplausos frenéticos da platéia embriagada,
liberto meus atores aos próprios uivos, para que se percam.
Mas eles me perseguem, rastejando descabelados e revoltos
– com a maquiagem a lhes escorrer pela cara –
reivindicando novos papéis.
Como uma trupe de fantasmas caducos a reclamar os antigos corpos.
Falo meus delírios por meio de vocábulos incertos,
que é para melhor repercutir meus conceitos desilusórios.
Ou antes: busco falar,
porque na verdade estou aprendendo a falar,
porque na verdade estou aprendendo a andar somente agora, aos 59 anos de idade.
Estou aprendendo a nascer e a ser.
Aprendendo a me desconstruir.
Quero usar minhas palavras para incompreender ainda mais.
Para incompreender tudo! Absolutamente.
Que é pra ver se vejo as coisas com mais indecência.
Quero usar minha voz para esquecer.
Sobretudo esquecer de falar
e de como se fala.
Que é pra ver se vejo as coisas
com pura indecência.
Que é pra aprender a somente gritar.
Gritar sem nenhuma letra.
Gritar trapos, sonâmbulos, taperas.
Gritar como o homem das pedras gritou logo que começou a dominar o fogo.
Gritar como quem está no topo da mais alta das montanhas
e quer desencadear uma avalanche que acabe com o mundo inteiro.
Gritar até ensurdecer,
até apagar o futuro.
Em todos os desacordes
com toda deficiência
com toda impaciência
gritar!
Friederick Misófilo
criado por marcblues72
16:00 — Arquivado em: 

Comentário por Paula Klaus — 9 de outubro de 2008 @ 12:41
“Que é pra aprender a somente gritar/Gritar sem nenhuma letra/Gritar trapos, sonâmbulos, taperas.”
Porra! Poema pra começar o dia!
Marcelo, como está você? Como está o blues?!
Beijão!
Comentário por alice — 5 de setembro de 2009 @ 4:43
um poema como poucos dos tantos que ando lendo nos últimos anos…