8 de setembro de 2008
Stalin cibernético

Estou ficando de saco cheio. Todo mundo está em todos os lugares o tempo todo. Não se pode fazer mais nada hoje em dia, sem que se seja bisbilhotado por olhos alheios. Se você pegar um jipe e sair em uma expedição pelo rincão mais afastado do globo, pode ter certeza de que, em dado momento, irá encontrar um vivente perdido pela região, caminhando, talvez a esmo, sabe-se lá em busca do quê. E quando não dispomos da possibilidade de tomarmos tal jipe, a situação torna-se ainda mais dramática. Além das pessoas estarem por toda parte, em todos os lugares existem câmeras nos filmando. Em todos os cantos do mundo existe alguém monitorando algo ou alguém.
A tecnologia é a grande culpada. A tecnologia nos trouxe coisas muito boas, como os livros e a máquina de lavar. Por outro lado, também nos traz uma série de aborrecimentos. E o celular é o pior desses aborrecimentos. Graham Bell - tudo bem, movido por uma boa causa - fez a besteira de criar o pior aparelho da história das civilizações, que é o telefone. E o celular veio com seus tentáculos, estender as múltiplas possibilidades desse aparelho, e infernizar a vida de todo mundo. Além de permitir que entremos em contato uns com os outros, os celulares gravam áudio e vídeo, fotografam, enviam e recebem mensagens, acessam a internet… Para muitos, isso significa o apogeu da modernidade.
O celular é o exemplo mais fiel da tragédia vivida nesses nossos turbulentos dias. Mesmo se considerarmos os aspectos mais inocentes. O sujeito vai a uma festa e no dia seguinte já está lá, a disposição do público, todos os registros possíveis feitos durante o evento. Centenas de fotos. Tudo, absolutamente tudo, ‘imortalizado’ nas magnéticas teias intergalácticas da net. Se alguém vomitar na mesa ao lado, certamente será contemplado por centenas de flashes durante o ato. E sempre tem alguém para olhar as tais fotos e tecer seu comentário sobre elas. É tanta aparição, que começam a surgir os ditos gênios, espocando aos borbotões. De modo que, dentro em pouco, nem saberemos mais distinguir a tolice da originalidade.
Falar ao telefone, aliás, se tornou uma aventura. Tudo tem de ser medido. Se você fizer uma piada e ela for mal interpretada pelos arapongas de plantão, você poderá ser convidado a depor nos próximos dias, sem mesmo saber o motivo de tal convocação. É a era claustrofóbica de Kafka levada aos seus limites mais sombrios.
Tudo bem que essas bisbilhotices estão contribuindo para a solução de diversos crimes, o que é um aspecto interessante. Por outro lado, estamos acabando com toda forma de privacidade, e a tendência é de que a situação se agrave cada vez mais. E, embora existam legislações proibindo este ou aquele tipo de gravação, elas se tornam insuficientes e inúteis quando todo mundo tem a possibilidade de gravar todo mundo.
E qual o grande problema disso tudo? O problema é que a mentira passa a ser ameaçada. A dissimulação está em seus momentos finais! Famílias vão deixar gravadores escondidos nos armários para ouvir o que um fala sobre o outro. E todos sabemos que um mundo sem mentira e sem dissimulação é um mundo condenado ao armagedon. Qualquer pessoa comenta alguma coisa pelas costas de outra a todo o instante. Se isto não for mais permitido, criaremos um ambiente irrespirável.
Todos nós temos segredos impublicáveis. Não adianta negar. Se esses segredos começam a ser revelados, a culpa não será mais da natureza humana, mas do infeliz que teve um depoimento íntimo, gravado por outrem. E aquele que o gravou, desabará seu discurso de fariseu sobre o coitado, sua hipocrisia moralista. E poderá chantageá-lo, obrigando-o a servi-lo, caso não queira ter seu segredo revelado para toda galáxia.
Aquele comentário inocente, que o cabelo da Lucrécia está ridículo, ou de que a Gisele é uma gostosa, em pouco tempo, talvez mesmo instantaneamente, estará de posse delas, e elas adentrarão em seu recinto, bufando e batendo os saltos, chamando-o de canalha e maníaco, antes mesmo que você possa se dar conta do que está ocorrendo. E crimes vão acontecer pelos motivos mais estúpidos. Testemunharemos a asfixia do indivíduo, em nome do controle geral dos passos da humanidade. Com o agravante de que sempre existirá alguém no poder disso tudo, sendo o paladino da verdade. E este alguém irá ocultar os segredos de seus eleitos e disseminar o terror entre os seus adversários. Como sabemos, a demagogia é um dos primeiros refúgios dos crápulas, e o discurso da moral é o mais usado entre eles e o responsável por algumas das mais funestas campanhas, que contribuíram para o extermínio de milhões de seres humanos.
Se o preclaro leitor aceitasse um conselho, eu diria o seguinte: não saia por aí registrando besteiras em seu celular. Se ele chegar a desaparecer, você terá uma parte de sua vida extraviada, e talvez se depare com algum momento particular seu disponibilizado na internet para o deleite de todos. Sem contar que, ao não sair fazendo flagrantes por aí, vai nos poupar de certas tolices que não têm utilidade nenhuma.
Daqui a alguns anos, os famosos serão aqueles que não aparecem em parte alguma.
Ps.: O leitor deve ter estranhado a não citação de Orwell e Huxley. Não o fiz para que estranhasse.
Frases dostoiévskianas:
A mentira é o único privilégio dos homens sobre os outros animais. [...] Nem uma só verdade poderia alcançar se antes não mentisse quatorze vezes [...].
Mentir com graça, de uma maneira pessoal, é quase melhor que dizer a verdade à maneira de toda a gente; no primeiro caso é-se um homem e, no segundo, não se é mais que um papagaio.
Não há coisa no mundo mais difícil que a sinceridade e mais fácil que a lisonja.
criado por marcblues72
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