Que Nada!!!

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14 de setembro de 2008

A Viagem do Louco

Em março de 2001, eu retornava da cidade de Torres, extremo litoral norte do Rio Grande do Sul, depois de uma temporada de quatro meses. Antes de ir para casa, resolvi passar pela casa de uma de minhas irmãs, em Campo Mourão, no Paraná. Durante uma parada do ônibus em uma rodoviária – que não sei qual era –, aproveitei para esticar as pernas e fumar um cigarro. Um sujeito, aparentemente normal, se aproximou e me pediu um cigarro. Ele devia ter por volta de trinta anos, trazia no rosto uma acanhada barba de três dias e tinha os cabelos ligeiramente revoltosos. Dei o cigarro a ele, oferecendo-lhe também os fósforos. Ele negou meu auxílio, dizendo que o acenderia depois.

O homem ficou parado a poucos metros de mim e, embora eu não o olhasse, percebia-o por perto. Quando o ônibus estava para partir, o estranho se aproximou novamente, devolvendo-me o cigarro, dizendo que não fumava. Fiquei confuso. Retardei os passos, esperei-o entrar novamente no ônibus e joguei aquele cigarro fora, embora duvide que tenha adicionado ali alguma substância.

A viagem prosseguia monótona quando, faltando em torno de cem quilômetros para alcançarmos nosso destino, o mesmo homem se dirigiu rapidamente para a parte posterior do ônibus, batendo de maneira aflita a porta que impede o acesso ao motorista. O motorista a abriu, ao que ele disse que precisava descer imediatamente. Julgando se tratar de um enjôo e que o homem estivesse na iminência de vomitar, o motorista parou o veículo e abriu a porta dianteira, permitindo que ele saísse.

Tão logo o infeliz botou os pés no asfalto, disparou em desenfreada corrida, no sentido oposto ao trajeto que vínhamos fazendo. O motorista, sem nada entender, levantou-se, avisando aos demais, que sem aquele passageiro não poderíamos prosseguir, já que ele precisava prestar contas a empresa quanto à chegada de todos os ocupantes do ônibus ao seu destino.

Coincidentemente, por se tratar de um lugar ermo, o local onde paramos ficava em frente a uma casa. No entanto isso não contribuiu para nada, já que, por mais que o motorista, seu auxiliar e alguns passageiros gritassem, ninguém saiu para ver o que estava acontecendo. Como se tratava de uma residência bem cuidada, a primeira constatação é a de que não se encontrava abandonada; a segunda, também obvia, era a de que naquela hora, seus ocupantes estavam ausentes.

Eu aproveitava para, novamente, esticar as pernas e fumar mais um cigarro, enquanto assistia ao desenrolar da história. O pobre fugitivo, tão desorientado estava, que, no mesmo momento em que ameaçava retornar para onde estávamos, novamente virava-nos as costas, reiniciando sua solitária maratona. Alguns pensaram que poderiam avisar alguém através do telefone celular, mas naquela época eram poucas as regiões em que esses aparelhos conseguiam captar o sinal das operadoras e ninguém conseguiu levar adiante aquele intento.

Vários passageiros gritavam, mas nenhum tentou alcançá-lo. Isso, aliás, poderia levá-lo a decidir-se de vez sobre sua fuga e a desaparecer definitivamente. Os comentários não demoraram a aparecer. Um homem disse que ele devia ser viciado em drogas. Afirmou conhecer dependentes químicos e que aquele sujeito apresentava todas as características de quem estava sob efeito de narcóticos, ou sob efeito da carência de substâncias lisérgicas. Outra senhora sentenciou que ele devia ter engravidado alguma moça e que, não sabendo se assumia o filho, ou não, ficava naquele vai e volta. Ela apenas não soube precisar se o tal herdeiro, que estava para vir à luz, o faria na cidade para onde estávamos nos dirigindo, ou se na em que o sujeito parecia querer voltar.

Depois de, novamente, correr rumo ao horizonte, a ponto de se tornar uma minúscula mancha na paisagem e nos convencer de que não mais retornaria, o lunático parou novamente e veio de volta. Caminhando.

Ninguém acreditou que ele de fato retornaria, mas foi o que aconteceu.

Chegou sorumbático, alheio aos discursos que o repreendiam e que lhe perguntavam o motivo de tamanho contratempo. Ele permanecia de cabeça baixa. Quieto. Ao invés de entrar no ônibus, sentou-se, encostando suas costas à roda traseira do carro. As pessoas falavam com ele, pedindo sua colaboração para o prosseguimento da viagem, mas ele nada. Cabeça baixa; silêncio denso.

De repente o homem começou a se bater. Tomamos um enorme susto, mas logo vimos que não se tratava de nenhuma convulsão. Aconteceu que ele havia sentado sobre um formigueiro e os insetos resolveram expulsá-lo dali. Alguns o ajudaram a se livrar das incomodas criaturas e aproveitaram para reiterar o convite para que adentrasse novamente no ônibus. Mas ele continuava sem escutar ninguém. Tão logo se livrou das formigas, se recompôs, deu alguns passos vesgos e sentou-se novamente; desta vez encostado à roda dianteira do ônibus.

Acendi mais um cigarro e, como que por um encanto, o sujeito repentinamente voltou a si. Lançou-me um fuzilante olhar de censura e emendou um discurso indignado, perguntando como eu tinha coragem de fumar perto dele, que aquilo era um desrespeito… Evidentemente que o sujeito tinha algum problema sério com o tabaco, mas como eu não sabia o que dizer, já que não dispunha de conhecimentos necessários para analisar tal situação, resolvi aproveitar aquele súbito retorno do louco à realidade para repreendê-lo também.

– O que não se faz é deixar-nos aqui esperando sua boa vontade para podermos terminar essa viagem. Estamos cansados, faltam ainda cem quilômetros para chegarmos e se você não tivesse nos impedido, já estaríamos quase lá.

Ele rapidamente foi murchando sua expressão irada, esboçando mergulhar novamente naquele seu silêncio sombrio. Mas neste momento todos se revoltaram de vez, dizendo que chegara hora de encerrar de vez com aquilo. Três homens juntaram-no do chão e, mesmo a contragosto do desgraçado, forçaram-no a entrar novamente no ônibus.

O homem sentou-se, retornando à sua misteriosa indiferença, desta vez sob o olhar vigilante de todos. Estranhamente ele ergueu a gola da camisa até a altura do nariz, como se estivesse se protegendo dos efeitos maléficos de uma atmosfera contaminada.

A viagem prosseguiu, dessa vez mais tensa. O homem simplesmente não se movia. Eu, que estava sentado duas poltronas a sua frente, olhava para os lados da janela, esticando um pouco mais o olhar, para vê-lo. Estático. Ao chegarmos em Campo Mourão ocorreu a última estranheza daquela viagem.

Por mais que o motorista mexesse na alavanca que acionava o dispositivo de abertura da porta, ela simplesmente permanecia fechada. Quase todos estávamos de pé, ansiosos por sairmos logo do veículo, e partirmos, cada qual ao seu destino ignorado. O estranho permanecia submerso em sua catatonia, com o rosto voltado à janela e a camisa cobrindo-lhe parcialmente o rosto. O motorista anunciou, decepcionado, que não sabia o por quê de a porta não obedecer ao seu comando, e que teríamos de nos dirigir a uma oficina mecânica da empresa, para que alguém desse um jeito de solucionar o problema.

O motorista falava sem deixar de mexer na alavanca, na esperança de a porta decidir-se a abrir. O louco ainda olhava pela janela, sem nada ouvir ou ver. Comecei a ficar preocupado. Cuidava o louco e a porta. O motorista não desistia de tentar acioná-la. O louco, indiferente. O motorista falando, os passageiros falando, a porta imóvel. O louco quieto.

Não sei se mais alguém percebeu, mas, de repente, o louco preguiçosamente se moveu. Virou a cabeça em direção à porta e, ao fazê-lo, a mesma inexplicavelmente se abriu. Tratei de impedir que um calafrio atravessasse minha medula e se espalhasse pelo meu corpo fatigado. Empurrei alguns passageiros, desci os degraus e sai do ônibus, sem sequer olhar para trás.

criado por marcblues72    17:58 — Arquivado em: Sem categoria

8 de setembro de 2008

Stalin cibernético

Estou ficando de saco cheio. Todo mundo está em todos os lugares o tempo todo. Não se pode fazer mais nada hoje em dia, sem que se seja bisbilhotado por olhos alheios. Se você pegar um jipe e sair em uma expedição pelo rincão mais afastado do globo, pode ter certeza de que, em dado momento, irá encontrar um vivente perdido pela região, caminhando, talvez a esmo, sabe-se lá em busca do quê. E quando não dispomos da possibilidade de tomarmos tal jipe, a situação torna-se ainda mais dramática. Além das pessoas estarem por toda parte, em todos os lugares existem câmeras nos filmando. Em todos os cantos do mundo existe alguém monitorando algo ou alguém.

A tecnologia é a grande culpada. A tecnologia nos trouxe coisas muito boas, como os livros e a máquina de lavar. Por outro lado, também nos traz uma série de aborrecimentos. E o celular é o pior desses aborrecimentos. Graham Bell - tudo bem, movido por uma boa causa - fez a besteira de criar o pior aparelho da história das civilizações, que é o telefone. E o celular veio com seus tentáculos, estender as múltiplas possibilidades desse aparelho, e infernizar a vida de todo mundo. Além de permitir que entremos em contato uns com os outros, os celulares gravam áudio e vídeo, fotografam, enviam e recebem mensagens, acessam a internet… Para muitos, isso significa o apogeu da modernidade.

O celular é o exemplo mais fiel da tragédia vivida nesses nossos turbulentos dias. Mesmo se considerarmos os aspectos mais inocentes. O sujeito vai a uma festa e no dia seguinte já está lá, a disposição do público, todos os registros possíveis feitos durante o evento. Centenas de fotos. Tudo, absolutamente tudo, ‘imortalizado’ nas magnéticas teias intergalácticas da net. Se alguém vomitar na mesa ao lado, certamente será contemplado por centenas de flashes durante o ato. E sempre tem alguém para olhar as tais fotos e tecer seu comentário sobre elas. É tanta aparição, que começam a surgir os ditos gênios, espocando aos borbotões. De modo que, dentro em pouco, nem saberemos mais distinguir a tolice da originalidade.

Falar ao telefone, aliás, se tornou uma aventura. Tudo tem de ser medido. Se você fizer uma piada e ela for mal interpretada pelos arapongas de plantão, você poderá ser convidado a depor nos próximos dias, sem mesmo saber o motivo de tal convocação. É a era claustrofóbica de Kafka levada aos seus limites mais sombrios.

Tudo bem que essas bisbilhotices estão contribuindo para a solução de diversos crimes, o que é um aspecto interessante. Por outro lado, estamos acabando com toda forma de privacidade, e a tendência é de que a situação se agrave cada vez mais. E, embora existam legislações proibindo este ou aquele tipo de gravação, elas se tornam insuficientes e inúteis quando todo mundo tem a possibilidade de gravar todo mundo.

E qual o grande problema disso tudo? O problema é que a mentira passa a ser ameaçada. A dissimulação está em seus momentos finais! Famílias vão deixar gravadores escondidos nos armários para ouvir o que um fala sobre o outro. E todos sabemos que um mundo sem mentira e sem dissimulação é um mundo condenado ao armagedon. Qualquer pessoa comenta alguma coisa pelas costas de outra a todo o instante. Se isto não for mais permitido, criaremos um ambiente irrespirável.

Todos nós temos segredos impublicáveis. Não adianta negar. Se esses segredos começam a ser revelados, a culpa não será mais da natureza humana, mas do infeliz que teve um depoimento íntimo, gravado por outrem. E aquele que o gravou, desabará seu discurso de fariseu sobre o coitado, sua hipocrisia moralista. E poderá chantageá-lo, obrigando-o a servi-lo, caso não queira ter seu segredo revelado para toda galáxia.

Aquele comentário inocente, que o cabelo da Lucrécia está ridículo, ou de que a Gisele é uma gostosa, em pouco tempo, talvez mesmo instantaneamente, estará de posse delas, e elas adentrarão em seu recinto, bufando e batendo os saltos, chamando-o de canalha e maníaco, antes mesmo que você possa se dar conta do que está ocorrendo. E crimes vão acontecer pelos motivos mais estúpidos. Testemunharemos a asfixia do indivíduo, em nome do controle geral dos passos da humanidade. Com o agravante de que sempre existirá alguém no poder disso tudo, sendo o paladino da verdade. E este alguém irá ocultar os segredos de seus eleitos e disseminar o terror entre os seus adversários. Como sabemos, a demagogia é um dos primeiros refúgios dos crápulas, e o discurso da moral é o mais usado entre eles e o responsável por algumas das mais funestas campanhas, que contribuíram para o extermínio de milhões de seres humanos.

Se o preclaro leitor aceitasse um conselho, eu diria o seguinte: não saia por aí registrando besteiras em seu celular. Se ele chegar a desaparecer, você terá uma parte de sua vida extraviada, e talvez se depare com algum momento particular seu disponibilizado na internet para o deleite de todos. Sem contar que, ao não sair fazendo flagrantes por aí, vai nos poupar de certas tolices que não têm utilidade nenhuma.

Daqui a alguns anos, os famosos serão aqueles que não aparecem em parte alguma.

Ps.: O leitor deve ter estranhado a não citação de Orwell e Huxley. Não o fiz para que estranhasse.

Frases dostoiévskianas:
A mentira é o único privilégio dos homens sobre os outros animais. [...] Nem uma só verdade poderia alcançar se antes não mentisse quatorze vezes [...].

Mentir com graça, de uma maneira pessoal, é quase melhor que dizer a verdade à maneira de toda a gente; no primeiro caso é-se um homem e, no segundo, não se é mais que um papagaio.

Não há coisa no mundo mais difícil que a sinceridade e mais fácil que a lisonja.

criado por marcblues72    21:53 — Arquivado em: Sem categoria
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