Que Nada!!!

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2 de dezembro de 2007

Tragicrônica urbana sobre uma anormalidade banal

Normalmente, ao nos depararmos com uma história verídica, nos ocorre que ela seria inconcebível se tivesse sido fantasiada pela mente de alguém. Isto porque a realidade
é, em grande parte, absurda mesmo. De modo que, para darmos uma tez crível a um fato testemunhado, não raro precisamos, antes, torná-lo verossímil.

A rodoviária de Campo Grande é interessante por aquilo que tem de pitoresco, de prosaico. Basta ficarmos alguns minutos circulando em seu entorno para testemunharmos algum episódio caricaturesco, de rara comicidade. Para não falarmos do aspecto trágico.

Os bares, que existem aos montes em volta desse lugar tão ímpar, são legítimos mananciais para a colheita de absurdos, que ocorrem aos montes a quase todo momento e são lamentávelmente desperdiçados pela nossa literatura.

Não precisei de dez minutos de passeio para perceber um estranho trio sentado em um dos
“botecos”, de onde supus sairia algum acontecimento digno de nota. Não sei se acertei.

Eram uma mulher e dois “caras”. O aparentemente mais novo dos dois homens era acentuadamente magro e devia contar pouco mais de umas 30 tumultuadas primaveras. Ele apresentava um aspecto exausto, com a pele gretada pela aridez de sucessivas intempéries e quase enrugada devido às cavidades do rosto, mas mantinha um olhar afiado e uma postura desafiadora, como se a vida é que tivesse de ficar atenta a ele e não o contrário. O
homem gentilmente dirigia à mulher algumas palavras , embora com freqüência nelas tropeçasse; tanto por conta de um estado de generosa embriagues - que forçosamente dissimulava -, como pela escassez de recursos vocabulários. O motivo de toda gentileza
se devia ao fato de ele tentar convencê-la a irem para o hotel situado na esquina oposta, de frente para o bar.

A mulher trazia uma aparência tranqüila, de uns 50 bem-conservados anos. Atrevo-me a dizer sobre ela, que não tinha nem vocação para um lupanar, tampouco predisposições canônicas. Seus olhos mornos eram dignos dos que se conformam e mantinha a expressão animada, particular aos crédulos. Olhava e escutava seu interlocutor com significativo
interesse, como se estivesse pronta para se deixar convencer pelos seus anêmicos argumentos.

O terceiro personagem permanecia sorumbático, visivelmente constrangido, como se meditasse sobre algo ou, antes, remoesse alguma indignação. Pelo jeito ele não via oportunidade de furar o bloqueio verbal que o isolava dos outros dois e por isto
porejava certa fúria turvada a desgosto. Enfim, parecia haver reconhecido perder a laboriosa batalha da sedução. Ele devia ter lá seus 40 anos, uma pele flácida e um olhar compenetrado – talvez mais pela imposição da momentânea circunstância do que pela força
do hábito.

O diálogo do enamorado casal permanecia aceso, apesar de não muito quente. Mas lá pelas tantas – e olhe que nem foram tantas assim – a mulher adotou um ar de resolução, fazendo que sim com a cabeça, obviamente concordando com o convite recebido.

Ela se levantou e, já saindo, disse ao que ficava que cuidasse de sua bolsa, uma vez que não se demoraria. Mas este se “queimou” e nas poucas e quase proféticas palavras que pronunciou, deixou nítido seu desconforto com o desdobramento inesperado daquele minúsculo diálogo.

– Tô de olho em vocês – foi só o que, raivosamente, conseguiu exprimir.

A mulher, não gostando da gravidade daquele tom ameaçador, bruscamente voltou-se para pegar a bolsa e levá-la consigo.

Enquanto os dois estavam nessa, o que fora contemplado pela caridade da dama se levantou, rumando para o lado dos hotéis. E se me refiro ao hotel no plural é por ter percebido que o sujeito avistava mais de um no lugar daquele, e provavelmente
os divisasse embaralhados num complexo amontoado de esquinas móveis, balançando-se
como barcos que estivessem ancorados no Porto dos Vendavais tempestuosos.

Ocorreu que o coitado, ao se persuadir quanto da impossibilidade de manter o corpo aprumado, inclinou-o violentamente para a frente e, sem olhar para os lados da rua, iniciou a dolorosa travessia. Levantava os pés de um modo absolutamente anômalo, como se não quisesse correr o risco de tropeçar na rua bamba, que insistia em enroscar-se nas
desordenadas pernas. E parecia que, numa conjugação de inúteis e desmesurados esforços, tentava traçar uma linha imaginária diante dos olhos e a ela buscasse manter a fidelidade dos passos. Não sei se a linha imaginada estava enviesada como seus olhos, mas por mais que ele se esforçasse, seus pés sempre se esquivavam – e bota esquivavam nisso – de modo
que para transpor o espaço que uma criatura lúcida venceria em pouco mais de dez passos, ele precisou gastar no mínimo uns cinqüenta.

Nisso a mulher já o olhava. E de repente seus olhos pareceram desolados, como se naquele momento a força da realidade revelasse a eterna condição a que sua vida sempre estivera destinada. Seus braços penderam, com as mãos unidas seguradas à alça da bolsa e ela se limitou a contemplar aquele espetáculo deprimente. Mas passado um instante, novamente
se recompôs. E uma vez constatado que o “namorado” chegara, não são, mas a salvo na entrada do hotel, também seguiu em sua direção. E os dois devem ter tido uma tarde bastante movimentada.

O outro ficou ali, sozinho. O olhar revoltado de antes, agora encontrava-se aguado, exprimindo um tom reflexivo, embora raso. Das exploradas caixas de som do estabelecimento, saia um Amado Batista de voz enrugada.

criado por marcblues72    19:23 — Arquivado em: Sem categoria

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