6 de dezembro de 2007
Comovente Selvageria
A idéia era ir a algum lugar que julgássemos excêntrico, para dali coletarmos algum episódio inusitado, que pudesse ser rememorado em sala, onde o descreveríamos, atentando para aspectos tanto concretos, quanto abstratos. Com isto seriamos avaliados quanto à capacidade que temos de narrar com propriedade sobre um fato.
Entretanto, surpresas são surpresas e, normalmente, não ocorrem quando procuramos por elas. Alguns autores têm o olhar cirúrgico de um bisturi, sendo capazes de fender o tecido do cotidiano, descortinando nuances que nós, meros mortais, não podemos enxergar.
Tentei incorporar um desses autores, para a ocasião, já que nada curioso atravessara meu caminho. Como era de se esperar, não consegui. Ainda assim relatei a aventura de uma menininha que “brigava” com um prato de churrasco na feira central. Um jantar interessante, com lances dignos de uma narrativa excêntrica, como esta.
Era ela, uma menina de uns cinco anos, loirinha, de olhos azuis translúcidos e uma pele de Lucíola, “que parecia querer se desfazer ao menor sopro, como os tênues vapores da alvorada”, como tão bem nos descreve José de Alencar, em seu excelente romance.
A menina, embora acompanhada dos pais e de um irmãozinho – este um pouco mais velho –, lutava sozinha para ingerir os pedaços de carne, cortados em pedacinhos no seu prato.
Ela estava sentada numa daquelas cadeiras próprias para a sua idade e estatura e segurava o garfo como um bárbaro, mastigando despreocupadamente.
O interessante foi observar o ritual que se tornou aquele jantar, já que, tão logo a garota engolia um naco da carne, já se concentrava para “capturar” o seguinte, tendo de se empenhar muito, pois que sua coordenação motora ainda não lhe permitia certas manobras, indispensáveis à uma sobrevivência razoável. Seus movimentos tinham de ser meticulosamente calculados, para só aí serem executados.
Ela segurava o garfo bem apertado, de um modo nada elegante, com sua ponta saindo pelo lado inferior da mão fechada. E com o olhar concentrado no conteúdo do prato, investia contra aquela que seria sua “vítima”. Mas investia com cautela. Baixava o garfo lentamente, ajustando-o em direção ao alvo a todo momento, já que sua mão insistia em desviar-se do curso.
Depois de alguns momentos, e muito esforço, ela conseguia o delicioso feito, cujo triunfo era o prazer indescritível de forrar o estômago.
Uma vez presa à ponta do garfo, a carne era içada a sua boca, sendo este um momento um tanto perigoso. Mas ela era dedicada, não permitindo que a carne, uma vez fisgada, escapasse do seu nobre destino. Então mastigava, orgulhosa.
Chego a supor que sua mãe teria lhe dito que uma mocinha não pede ajuda para comer. Como ela devia achar bonito ser uma mocinha, decidiu abster-se dos auxílios maternos, “se virando” sozinha, como uma adolescente.
Isto para alegria da mãe que, pelo olhar vago e apagado, parecia não se preocupar muito com a família. Quanto ao pai; este parecia ainda mais distante.
O bonito da cena toda é que a carne estava levemente untada em farofa. Como o rosto da menina estava todo lambuzado de gordura, ficou tomado por aquela farofa, transformando um mero jantar, em um verdadeiro espetáculo.
Fiquei imaginando que escândalos ela não provocaria, se dali a dez anos inventasse de se comportar de modo semelhante, desacatando as mais elementares regras de etiqueta. Certamente que seria expulsa pelos amigos, ou percebesse que os mesmos se afastariam.
Permaneci observando, enquanto tomava algumas cervejas. Ela continuou na mesma determinação, até que, finalmente, deu por encerrada a fatigante tarefa, deixando para trás somente dois ou três “sobreviventes” no prato.
E então, radiante, ela pegou o copo de coca-cola que a aguardava ao lado, colocou o canudo na boca de uma maneira absolutamente descompromissada, apoiou-se no encosto da cadeira e, exausta e feliz, ingeriu o precioso líquido, olhando para o infinito, com a expressão sossegada e satisfeita de quem acabou de retornar de um safári.
criado por marcblues72
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