Que Nada!!!

Um Blog sem noção para pessoas de fino trato!

12 de novembro de 2007

A piauí não publicou, mas o Quenada publica!

De como Lucrécio Hidalgo Silvério Ficou sem as Orelhas

Quando tinha 58 anos, Sophia Anna Hidalgo Silvério perdeu a um só tempo o marido e a razão. Aquele sucumbiu a uma parada cardíaca; esta, diante da perspectiva de solidão perpétua, que se avizinhara.

Conforme os dias seguiam, Sophia ficava cada vez mais doida. Passava horas aferrada a um órgão, estrebuchando-se em cânticos sacros, que se tornavam quase satânicos tão logo lhe saiam do magoado ventre, fazendo estremecer os decrépitos espíritos que ainda hoje habitam os sombrios esconsos da secular arquitetura.

Seu único filho, Lucrécio Hidalgo Silvério, de 39 anos, morava ainda com ela, mas não dava a mínima às suas veleidades, desprezando-a por completo. Passados sete meses do falecimento do esposo, Sophia também morreu. De abandono. Lucrécio entristeceu-se por alguns dias, passando-os na casa de uma tia, até decidir voltar a sua, onde pretendia viver em absoluto isolamento.

Chegando ao sobrado, porém, espantou-se ao percebê-lo adornado por um não-sei-quê de obscuro. Em toda parte imperava certa nuança pardacenta de luto. Os ventos que cortavam os corredores enregelaram-lhe momentaneamente o dorso, tal o modo como pareceram um coro de almas decaídas. Mas Lucrécio não se intimidou. No mais, julgou não haver nada tão pavoroso que pudesse superar os cantos da finada mãe, que Deus a tivesse. Subiu até o seu quarto e dormiu.

Sonhou que atravessava um rio a nado. Era noite. Ao chegar à margem deparou-se com uma criança pálida, translúcida, que iniciou um lamento monótono, aos poucos ganhando corpo, até evoluir a agudos dissonantes cada vez mais tétricos e ensurdecedores. Depois a criança foi se deformando e tudo o mais se dissolvendo, restando somente o terrível canto, agora não mais vindo do sonho e sim da sala. Lucrécio acordou, não acreditando nos próprios ouvidos. Desceu desesperado as escadas, mas o cômodo estava vazio. Somente os arpejos bestializados da falecida e os acordes distorcidos do órgão preenchiam o desolado aposento.

Naquela noite os gritos saídos da casa chamaram a atenção aos vizinhos, que avisaram a tia de Lucrécio, Maria Cecília. Ela o encontrou na sala, ensangüentado e sem as duas orelhas, dançando em torno do órgão e rindo às bandeiras despregadas, com uma faca na mão. Ao vê-la, parou subitamente.

– Olá, titia – disse, arquejante; os olhos injetados. – Escute, é mamãe! A miserável não pára de cantar. Olhe como canta bonito, agora. Mas os arpejos de mamãe me levaram ao suicídio. Veja minha situação. Estou morrendo. Olha essa mamãe… Essa mamãe é doida!

E expirou.

criado por marcblues72    16:13 — Arquivado em: Sem categoria

1 Comentário »

  1. Comentário por Bruna — 15 de novembro de 2007 @ 8:40

    Gostei. Bem imagético e, principalmente, sonoro. Um bom conto, meu amigo, com um bom título.
    Beijos.

Deixe um comentário

Report abuse Close
Am I a spambot? yes definately
http://quenada.blog.terra.com.br
 
 
 
Thank you Close

Sua denúncia foi enviada.

Em breve estaremos processando seu chamado para tomar as providências necessárias. Esperamos que continue aproveitando o serviço e siga participando do Terra Blog.