10 de dezembro de 2006
Estamos nos devendo
As pessoas sofrem. Sofrem com quanto fôlego podem. Muitas gostam de sofrer. Outras sofrem sem gostar, mas sentem o prazer da dor, na ânsia de serem reconhecidas por alguma entidade abstrata que as resgatará das sombras.
Converso com as pessoas e percebo a satisfação que algumas têm de relatar suas agruras. Na certeza de que o que passam, por si só será capaz de reverter o quadro de dissolução em que se encontram. E isso promove um processo de adiamento perene, que as condena a morrer na véspera. Antes do futuro.
Dizem que o que aqui se faz aqui se paga. Uma esperança complementa um mal e leva os humanos a se julgarem indignos de qualquer graça, cada vez que se afundam em mais misérias do que a em que já se encontravam mergulhados. E o problema é esse. A gente só paga. Ninguém nos paga nada. Nosso haver é protelado por alguma instância superior demais pra nos permitir apelação. Uma instância tão superior, que tributa com todo rigor nossos erros e ainda reserva a quimera dos nossos créditos para quando estivermos sepultados. Santa benevolência.
Observem como as pessoas se comportam. O amor. As pessoas emprestaram ao amor um grau tão superior de delícias, que a ele se submetem sob qualquer circunstância. Quem ama, se pudesse optar, preferiria uma vida de desgraças ao lado da criatura amada do que uma vida feliz ao lado de quem quer que fosse. Considerando, é claro, a possibilidade de se haver uma conjugação de fatores que possibilitasse ao conjunto da vida uma quantidade satisfatória de alegrias capazes de o transcender a um estado de felicidade constante, enfim.
O contrasenso dessa escolha "infeliz" é de um absurdo tão absoluto que só pode ser defendido por argumentos que escapam à justificação racional. É o amor. Para o amor até a infelicidade é feliz. Independente de o nosso conceito de amor não ter condições de definir e de discernir onde termina a dor e começa o prazer. Um depende do outro. Um numa ponta prova a existência do outro na outra e assim se convive. Um amor com voz de sereia, que depois de embriagar sua vítima a esgana com unhas de navalha. Uma felicidade cega, que depois de imaginada se sobrepõe à realidade emprestando à vida uma condição alheia ao estado de desencontro em que ele comumente se encontra. Daí esse estado de guerra.
Mephisto Fáustico
criado por marcblues72
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