Que Nada!!!

Um Blog sem noção para pessoas de fino trato!

6

de
outubro

Subsolo (um poema em prosa)

Não concerto com refinamentos, delicadezas, sofisticações, elegâncias.

As carências me incompletam e as incertezas são o meu firmamento.

Alimento-me de preguiças, despedaços, impurezas, pecados, decadências, irrazões.

As corrosões e suas inconseqüentes ruínas, forjam-me ainda mais inacabado do que já sou.
E eu quero viver o mais inacabado possível,
pra morrer mais inacabado ainda
e me extraviar pelas minhas incompreensões.

Inacabando eu abro as possibilidades de devastação
que procuro na alma e na palavra.

Quero incapacitar meu cérebro para os talentos e aprimorá-lo em seus defeitos.

Quero explorar os desconexos desvãos da inconsciência,
percorrendo suas galerias tétricas, suas estreitezas ásperas,
seus subúrbios sombrios, seus acidentes, seus porões,
e navegar por suas ilimitações.

Em meio a mais densa neblina e ao mais intenso vendaval,
vou fazer um ritual apocalíptico que acordará minhas síndromes ignoradas
e erguerá o cenário perturbador que me há de abrigar dos costumes apropriados.

Flores fuliginosas
deslumbramentos pardos
montanhas bruxuleantes
incandescências retalhadas
pássaros perplexos
lágrimas opacas.

Com o que serei o profeta relapso de uma facção de apóstolos hereges

Nos labirintos do cérebro
quero assistir os conflitos deflagrarem-se
colidirem-se
e entrarem em curto
para fundição de novas eternidades.

Das matérias mais turvas
extrairei ácidos escaldantes,
dos quais aproveitarei somente a insensatez
para a conjugação de novos evangelhos.

Porque o homem só exerce sua condição irracional
se se tornar um mineiro de seu cérebro
e escavar seus pensamentos com voracidade.

Porque o homem é o seu Deus
e sua cabeça o grande mar onde provocar ondas gigantescas
e grandes rebentações.

Porque o Deus Deus implorado pelos pobres não existe
e precisamos materializar o amor.

Precisamos desagregar nossas sombras
para que se libertem dos nossos modos entediados;
precisamos atormentar nossas visões atrofiadas,
para assim enxergarmos as tragédias que traduzem nossas interpretações.
E então poderemos admirar o que as nossas descobertas devastaram na gente
e inventarmos os sóis que ilustrarão nossos novos escombros.

Precisamos plantar ventos desencontrados,
sacudir nossos lençóis
freáticos
e na hora da colheita, dançarmos no ventre das pânicas tempestades.

Precisamos despir a moral - depravá-la,
para que possamos valer a pena.

Hoje consigo pensar que vale a pena ser
Eu
que começo a valer a pena
– depois de todas as primaveras terem me escapado pelos vãos dos dentes.
E dos dedos.

Começam a me atrair as fachadas poluídas,
as intoxicações, os amontoamentos, as ferragens, as ferrugens, os abutres,
os abandonos.
Começa a me despertar fascínio a anárquica urdidura que determina os limites do cotidiano.
Começo a exercer o milagre de uma inferioridade soberana

Abrigo no pensamento corpos que não me pertencem
e interpreto seus absurdos.
Depois de ouvir os aplausos frenéticos da platéia embriagada,
liberto meus atores aos próprios uivos, para que se percam.
Mas eles me perseguem, rastejando descabelados e revoltos
– com a maquiagem a lhes escorrer pela cara –
reivindicando novos papéis.
Como uma trupe de fantasmas caducos a reclamar os antigos corpos.

Falo meus delírios por meio de vocábulos incertos,
que é para melhor repercutir meus conceitos desilusórios.
Ou antes: busco falar,
porque na verdade estou aprendendo a falar,
porque na verdade estou aprendendo a andar somente agora, aos 59 anos de idade.
Estou aprendendo a nascer e a ser.
Aprendendo a me desconstruir.

Quero usar minhas palavras para incompreender ainda mais.
Para incompreender tudo! Absolutamente.
Que é pra ver se vejo as coisas com mais indecência.

Quero usar minha voz para esquecer.
Sobretudo esquecer de falar
e de como se fala.
Que é pra ver se vejo as coisas
com pura indecência.

Que é pra aprender a somente gritar.

Gritar sem nenhuma letra.
Gritar trapos, sonâmbulos, taperas.

Gritar como o homem das pedras gritou logo que começou a dominar o fogo.
Gritar como quem está no topo da mais alta das montanhas
e quer desencadear uma avalanche que acabe com o mundo inteiro.

Gritar até ensurdecer,
até apagar o futuro.

Em todos os desacordes
com toda deficiência
com toda impaciência

gritar!

Friederick Misófilo

14

de
setembro

A Viagem do Louco

Em março de 2001, eu retornava da cidade de Torres, extremo litoral norte do Rio Grande do Sul, depois de uma temporada de quatro meses. Antes de ir para casa, resolvi passar pela casa de uma de minhas irmãs, em Campo Mourão, no Paraná. Durante uma parada do ônibus em uma rodoviária – que não sei qual era –, aproveitei para esticar as pernas e fumar um cigarro. Um sujeito, aparentemente normal, se aproximou e me pediu um cigarro. Ele devia ter por volta de trinta anos, trazia no rosto uma acanhada barba de três dias e tinha os cabelos ligeiramente revoltosos. Dei o cigarro a ele, oferecendo-lhe também os fósforos. Ele negou meu auxílio, dizendo que o acenderia depois.

O homem ficou parado a poucos metros de mim e, embora eu não o olhasse, percebia-o por perto. Quando o ônibus estava para partir, o estranho se aproximou novamente, devolvendo-me o cigarro, dizendo que não fumava. Fiquei confuso. Retardei os passos, esperei-o entrar novamente no ônibus e joguei aquele cigarro fora, embora duvide que tenha adicionado ali alguma substância.

A viagem prosseguia monótona quando, faltando em torno de cem quilômetros para alcançarmos nosso destino, o mesmo homem se dirigiu rapidamente para a parte posterior do ônibus, batendo de maneira aflita a porta que impede o acesso ao motorista. O motorista a abriu, ao que ele disse que precisava descer imediatamente. Julgando se tratar de um enjôo e que o homem estivesse na iminência de vomitar, o motorista parou o veículo e abriu a porta dianteira, permitindo que ele saísse.

Tão logo o infeliz botou os pés no asfalto, disparou em desenfreada corrida, no sentido oposto ao trajeto que vínhamos fazendo. O motorista, sem nada entender, levantou-se, avisando aos demais, que sem aquele passageiro não poderíamos prosseguir, já que ele precisava prestar contas a empresa quanto à chegada de todos os ocupantes do ônibus ao seu destino.

Coincidentemente, por se tratar de um lugar ermo, o local onde paramos ficava em frente a uma casa. No entanto isso não contribuiu para nada, já que, por mais que o motorista, seu auxiliar e alguns passageiros gritassem, ninguém saiu para ver o que estava acontecendo. Como se tratava de uma residência bem cuidada, a primeira constatação é a de que não se encontrava abandonada; a segunda, também obvia, era a de que naquela hora, seus ocupantes estavam ausentes.

Eu aproveitava para, novamente, esticar as pernas e fumar mais um cigarro, enquanto assistia ao desenrolar da história. O pobre fugitivo, tão desorientado estava, que, no mesmo momento em que ameaçava retornar para onde estávamos, novamente virava-nos as costas, reiniciando sua solitária maratona. Alguns pensaram que poderiam avisar alguém através do telefone celular, mas naquela época eram poucas as regiões em que esses aparelhos conseguiam captar o sinal das operadoras e ninguém conseguiu levar adiante aquele intento.

Vários passageiros gritavam, mas nenhum tentou alcançá-lo. Isso, aliás, poderia levá-lo a decidir-se de vez sobre sua fuga e a desaparecer definitivamente. Os comentários não demoraram a aparecer. Um homem disse que ele devia ser viciado em drogas. Afirmou conhecer dependentes químicos e que aquele sujeito apresentava todas as características de quem estava sob efeito de narcóticos, ou sob efeito da carência de substâncias lisérgicas. Outra senhora sentenciou que ele devia ter engravidado alguma moça e que, não sabendo se assumia o filho, ou não, ficava naquele vai e volta. Ela apenas não soube precisar se o tal herdeiro, que estava para vir à luz, o faria na cidade para onde estávamos nos dirigindo, ou se na em que o sujeito parecia querer voltar.

Depois de, novamente, correr rumo ao horizonte, a ponto de se tornar uma minúscula mancha na paisagem e nos convencer de que não mais retornaria, o lunático parou novamente e veio de volta. Caminhando.

Ninguém acreditou que ele de fato retornaria, mas foi o que aconteceu.

Chegou sorumbático, alheio aos discursos que o repreendiam e que lhe perguntavam o motivo de tamanho contratempo. Ele permanecia de cabeça baixa. Quieto. Ao invés de entrar no ônibus, sentou-se, encostando suas costas à roda traseira do carro. As pessoas falavam com ele, pedindo sua colaboração para o prosseguimento da viagem, mas ele nada. Cabeça baixa; silêncio denso.

De repente o homem começou a se bater. Tomamos um enorme susto, mas logo vimos que não se tratava de nenhuma convulsão. Aconteceu que ele havia sentado sobre um formigueiro e os insetos resolveram expulsá-lo dali. Alguns o ajudaram a se livrar das incomodas criaturas e aproveitaram para reiterar o convite para que adentrasse novamente no ônibus. Mas ele continuava sem escutar ninguém. Tão logo se livrou das formigas, se recompôs, deu alguns passos vesgos e sentou-se novamente; desta vez encostado à roda dianteira do ônibus.

Acendi mais um cigarro e, como que por um encanto, o sujeito repentinamente voltou a si. Lançou-me um fuzilante olhar de censura e emendou um discurso indignado, perguntando como eu tinha coragem de fumar perto dele, que aquilo era um desrespeito… Evidentemente que o sujeito tinha algum problema sério com o tabaco, mas como eu não sabia o que dizer, já que não dispunha de conhecimentos necessários para analisar tal situação, resolvi aproveitar aquele súbito retorno do louco à realidade para repreendê-lo também.

– O que não se faz é deixar-nos aqui esperando sua boa vontade para podermos terminar essa viagem. Estamos cansados, faltam ainda cem quilômetros para chegarmos e se você não tivesse nos impedido, já estaríamos quase lá.

Ele rapidamente foi murchando sua expressão irada, esboçando mergulhar novamente naquele seu silêncio sombrio. Mas neste momento todos se revoltaram de vez, dizendo que chegara hora de encerrar de vez com aquilo. Três homens juntaram-no do chão e, mesmo a contragosto do desgraçado, forçaram-no a entrar novamente no ônibus.

O homem sentou-se, retornando à sua misteriosa indiferença, desta vez sob o olhar vigilante de todos. Estranhamente ele ergueu a gola da camisa até a altura do nariz, como se estivesse se protegendo dos efeitos maléficos de uma atmosfera contaminada.

A viagem prosseguiu, dessa vez mais tensa. O homem simplesmente não se movia. Eu, que estava sentado duas poltronas a sua frente, olhava para os lados da janela, esticando um pouco mais o olhar, para vê-lo. Estático. Ao chegarmos em Campo Mourão ocorreu a última estranheza daquela viagem.

Por mais que o motorista mexesse na alavanca que acionava o dispositivo de abertura da porta, ela simplesmente permanecia fechada. Quase todos estávamos de pé, ansiosos por sairmos logo do veículo, e partirmos, cada qual ao seu destino ignorado. O estranho permanecia submerso em sua catatonia, com o rosto voltado à janela e a camisa cobrindo-lhe parcialmente o rosto. O motorista anunciou, decepcionado, que não sabia o por quê de a porta não obedecer ao seu comando, e que teríamos de nos dirigir a uma oficina mecânica da empresa, para que alguém desse um jeito de solucionar o problema.

O motorista falava sem deixar de mexer na alavanca, na esperança de a porta decidir-se a abrir. O louco ainda olhava pela janela, sem nada ouvir ou ver. Comecei a ficar preocupado. Cuidava o louco e a porta. O motorista não desistia de tentar acioná-la. O louco, indiferente. O motorista falando, os passageiros falando, a porta imóvel. O louco quieto.

Não sei se mais alguém percebeu, mas, de repente, o louco preguiçosamente se moveu. Virou a cabeça em direção à porta e, ao fazê-lo, a mesma inexplicavelmente se abriu. Tratei de impedir que um calafrio atravessasse minha medula e se espalhasse pelo meu corpo fatigado. Empurrei alguns passageiros, desci os degraus e sai do ônibus, sem sequer olhar para trás.

8

de
setembro

Stalin cibernético

Estou ficando de saco cheio. Todo mundo está em todos os lugares o tempo todo. Não se pode fazer mais nada hoje em dia, sem que se seja bisbilhotado por olhos alheios. Se você pegar um jipe e sair em uma expedição pelo rincão mais afastado do globo, pode ter certeza de que, em dado momento, irá encontrar um vivente perdido pela região, caminhando, talvez a esmo, sabe-se lá em busca do quê. E quando não dispomos da possibilidade de tomarmos tal jipe, a situação torna-se ainda mais dramática. Além das pessoas estarem por toda parte, em todos os lugares existem câmeras nos filmando. Em todos os cantos do mundo existe alguém monitorando algo ou alguém.

A tecnologia é a grande culpada. A tecnologia nos trouxe coisas muito boas, como os livros e a máquina de lavar. Por outro lado, também nos traz uma série de aborrecimentos. E o celular é o pior desses aborrecimentos. Graham Bell - tudo bem, movido por uma boa causa - fez a besteira de criar o pior aparelho da história das civilizações, que é o telefone. E o celular veio com seus tentáculos, estender as múltiplas possibilidades desse aparelho, e infernizar a vida de todo mundo. Além de permitir que entremos em contato uns com os outros, os celulares gravam áudio e vídeo, fotografam, enviam e recebem mensagens, acessam a internet… Para muitos, isso significa o apogeu da modernidade.

O celular é o exemplo mais fiel da tragédia vivida nesses nossos turbulentos dias. Mesmo se considerarmos os aspectos mais inocentes. O sujeito vai a uma festa e no dia seguinte já está lá, a disposição do público, todos os registros possíveis feitos durante o evento. Centenas de fotos. Tudo, absolutamente tudo, ‘imortalizado’ nas magnéticas teias intergalácticas da net. Se alguém vomitar na mesa ao lado, certamente será contemplado por centenas de flashes durante o ato. E sempre tem alguém para olhar as tais fotos e tecer seu comentário sobre elas. É tanta aparição, que começam a surgir os ditos gênios, espocando aos borbotões. De modo que, dentro em pouco, nem saberemos mais distinguir a tolice da originalidade.

Falar ao telefone, aliás, se tornou uma aventura. Tudo tem de ser medido. Se você fizer uma piada e ela for mal interpretada pelos arapongas de plantão, você poderá ser convidado a depor nos próximos dias, sem mesmo saber o motivo de tal convocação. É a era claustrofóbica de Kafka levada aos seus limites mais sombrios.

Tudo bem que essas bisbilhotices estão contribuindo para a solução de diversos crimes, o que é um aspecto interessante. Por outro lado, estamos acabando com toda forma de privacidade, e a tendência é de que a situação se agrave cada vez mais. E, embora existam legislações proibindo este ou aquele tipo de gravação, elas se tornam insuficientes e inúteis quando todo mundo tem a possibilidade de gravar todo mundo.

E qual o grande problema disso tudo? O problema é que a mentira passa a ser ameaçada. A dissimulação está em seus momentos finais! Famílias vão deixar gravadores escondidos nos armários para ouvir o que um fala sobre o outro. E todos sabemos que um mundo sem mentira e sem dissimulação é um mundo condenado ao armagedon. Qualquer pessoa comenta alguma coisa pelas costas de outra a todo o instante. Se isto não for mais permitido, criaremos um ambiente irrespirável.

Todos nós temos segredos impublicáveis. Não adianta negar. Se esses segredos começam a ser revelados, a culpa não será mais da natureza humana, mas do infeliz que teve um depoimento íntimo, gravado por outrem. E aquele que o gravou, desabará seu discurso de fariseu sobre o coitado, sua hipocrisia moralista. E poderá chantageá-lo, obrigando-o a servi-lo, caso não queira ter seu segredo revelado para toda galáxia.

Aquele comentário inocente, que o cabelo da Lucrécia está ridículo, ou de que a Gisele é uma gostosa, em pouco tempo, talvez mesmo instantaneamente, estará de posse delas, e elas adentrarão em seu recinto, bufando e batendo os saltos, chamando-o de canalha e maníaco, antes mesmo que você possa se dar conta do que está ocorrendo. E crimes vão acontecer pelos motivos mais estúpidos. Testemunharemos a asfixia do indivíduo, em nome do controle geral dos passos da humanidade. Com o agravante de que sempre existirá alguém no poder disso tudo, sendo o paladino da verdade. E este alguém irá ocultar os segredos de seus eleitos e disseminar o terror entre os seus adversários. Como sabemos, a demagogia é um dos primeiros refúgios dos crápulas, e o discurso da moral é o mais usado entre eles e o responsável por algumas das mais funestas campanhas, que contribuíram para o extermínio de milhões de seres humanos.

Se o preclaro leitor aceitasse um conselho, eu diria o seguinte: não saia por aí registrando besteiras em seu celular. Se ele chegar a desaparecer, você terá uma parte de sua vida extraviada, e talvez se depare com algum momento particular seu disponibilizado na internet para o deleite de todos. Sem contar que, ao não sair fazendo flagrantes por aí, vai nos poupar de certas tolices que não têm utilidade nenhuma.

Daqui a alguns anos, os famosos serão aqueles que não aparecem em parte alguma.

Ps.: O leitor deve ter estranhado a não citação de Orwell e Huxley. Não o fiz para que estranhasse.

Frases dostoiévskianas:
A mentira é o único privilégio dos homens sobre os outros animais. [...] Nem uma só verdade poderia alcançar se antes não mentisse quatorze vezes [...].

Mentir com graça, de uma maneira pessoal, é quase melhor que dizer a verdade à maneira de toda a gente; no primeiro caso é-se um homem e, no segundo, não se é mais que um papagaio.

Não há coisa no mundo mais difícil que a sinceridade e mais fácil que a lisonja.

10

de
agosto

O Blues, Ah… O Blues…

Ter uma banda é foda. Ainda mais quando dura mais de uma década. Tem que se lidar com temperamentos difíceis, egos exaltados e às vezes até com falta de companheirismo. Já disse o Keith Richards dos Rolling Stones: "É um casamento sem sexo". Casamento sem sexo é uma merda. Tem vez que acho que ter uma banda também é uma merda… Mas escolhi isso pra mim, assim como o cara que casa com a mulher chata e atura os defeitos dela pra sempre. Será?
Bandas deveriam ser como famílias, nem sempre são.
Com os Bêbados Habilidosos também não podia ser diferente, afinal somos humanos cheios de imperfeições, mas tem hora que me dá no saco certas atitudes.
Vou levando a vida no "dum dum dum" certo que essas babaquices vão passar, afinal o que importa é a música no final.
Mas que enche os pacovás enche.
Uma coisa tenho aprendido com meu parceiro e irmão de copo e de cruz Renatão:
No final a gente sempre tá por aqui.
Isso é o Blues…

9

de
julho

The Blues: Uma viagem ao mundo do Blues

Hoje não vou criar polêmica! Pelo menos não espero isso. Vou falar dum assunto que me agrada muito: O Blues. Comprei recentemente o box de DVD’s The Blues, idealizado e produzido por Martin Scorcese e dirigido por nomes consagrados do cinema mundial como Clint Eastwood, Mike Figgis, Charles Burnett, Marc Levin, Richard Pearce e Wim Wenders em 2003. A pérola tem como intuito contar a trajetória de um dos estilos mais sinceros da história da música e sem dúvida cumpre seu papel.
É simplesmente indispensável para quem quer conhecer o ritmo nascido às margens do rio Mississipi. O box tem oito filmes que captam de maneira magistral através das lentes das câmeras toda emoção e feeling, marca registrada desse estilo musical que ainda hoje é uma religião pra muita gente.
O Blues rompe fronteiras e vai além das plantações de algodão. É como disse Willie Dixon: “O Blues é a raiz, o Rock’n’Roll e o Soul são os frutos”, muito do que ouvimos hoje na música contemporânea é de uma forma ou de outra herdeiro do Blues. Do Rock ao Hip Hop muitos beberam nessa fonte.
Os filmes além de ter cenas raríssimas dos grandes mestres do Blues contam com novas interpretações de artistas contemporâneos como Bonnie Raitt, Lou Reed, Tom Jones, Los Lobos, Jeff Beck entre outros.
Se você ainda não sabe o que é o Blues dê essa chance a si mesmo e mergulhe nesse mundo cheio de mistério, alegria, dor e glória.

Meu amigo de copo e de cruz e companheiro de banda, Renato Fernandes canta na música * “Você nunca vai saber o que é o Blues” o Blues da seguinte forma:

“Se você nunca dormiu num banheiro de um bar vagabundo
Se você nunca amou alguém que um dia foi embora
Se você nunca teve um dia de cão
Se nunca bebeu pra fugir da solidão

Você nunca vai saber o que é o blues

Se a tua vida sempre foi assim como uma linha reta
Se você sempre fez amor com a pessoa certa
Se você só tomou um gole de gim
E nunca bebeu a garrafa até o fim

Você nunca vai saber o que é o blues

Você nunca vai entender o que é o blues”

Porém se você não é nenhum boêmio como é o nosso caso o Box “The Blues” é uma excelente pedida. Vai por mim.

*Música dos Bêbados Habilidosos, banda de blues Sul-mato-grossense da qual tenho o orgulho de fazer parte.

31

de
março

A Revolução dos vegetais

Todo radicalismo enche o saco. Dei uma pesquisada e fiquei assombrado com os argumentos que os Vegetarianos Radicais ou “Vegans” como se auto-intitulam utilizam para defender seus ideais. Nos fóruns de discussão brindam onívoros como eu com adjetivos que vão desde fascistas até assassinos.

OK bacana defender o direito à vida dos animas, mas e o direito a vida dos vegetais? O tomate merece ser comido vivo? Sim, se o pobrezinho é colhido e comido fresco ainda está vivo!!! Quanta crueldade! E o infeliz alface que do nada é privado de sua vida tranqüila e do ar fresco da manhã para alimentar esse facínora radical? Coitada da couve que é abduzida de sua horta para alimentar o vegetariano malvado!

Brincadeiras à parte, se lutam tanto pelo direito a vida deveriam respeitar quem não compactua com seus ideais, o indivíduo com ponto de vista diferenciado também é vida ora bolas! É o mesmo radicalismo intolerante de algumas religiões, se você come carne está condenado ao inferno, você é um pecador.

Deveriam lutar contra as “MONSANTOS” da vida, multinacionais que exploram nosso país e nosso povo com seu monopólio no ramo de herbicidas. Salvem os vegetais desse lixo! Lutem contra os trangênicos!

Continuarei onívoro, não mudarei minha natureza. Continuo apreciando uma picanha mal passada, mas não me venham chamar de assassino que eu também os acusarei de matadores de tomates, pois eles também são seres vivos. Quanta abobrinha!

26

de
março

AO MESTRE COM CARINHO…

 


Sim… Voltei a escrever pro QUE NADA! Confesso que ando meio decepcionado. Não é com você! Se é que alguém lê isso… Eu tô possesso é com a raça “humana” em geral
Trabalhamos, estudamos, amamos, fodemos, destruímos, odiamos e depois nos redimimos a cada dia. A fila anda e nem sempre estamos no melhor de nosso humor. Hoje mesmo eu tava de cara. Estressado e sem razão aparente eu passei o dia inteiro ranzinza pra cacete. Bom, como não é pra falar de tristeza que eu vim aqui vou contar o que
me tirou desse baixo astral. Pois bem… Resolvi desenterrar da minha coleção de discos o maravilhoso clarinetista Benny Goodman. Nascido em 30 de maio de 1909 em Detroit e falecido no dia 13 de junho de 1986 em Nova Iorque, Benny fez o tipo de som que para o leigo no mundo do Jazz é mais ou menos aquela trilha sonora de desenhos animados antigos, como as que rolam em perseguições do Papa léguas. São como as famosas “Merry Melodies” que enfeitavam os velhos desenhos da Warner. Se você não conhece vai por mim! Conheça! Veja e ouça pérolas como “Sing Sing Sing” com o genial baterista Gene Krupa e o medley que tem no youtube. Eu relacionei os dois vídoes nas dicas no fim do texto!
Além de ser o primeiro artista branco a integrar artistas negros na sua orquestra, Benny foi também responsável por colocar a primeira “Jazz Band” pra tocar na União Soviética em plena guerra fria! Como se não bastasse sua imensa contribuição para a música, Benny Goodman fez cinema e está registrado pra posteridade em várias películas como "Folia a Bordo" (1937), "Hotel de Hollywood" (1938), "Música, Maestro" (1946), entre outros, vale o destaque "Entre a Loura e a Morena" (1943), com Carmem Miranda.
Já que hoje a tecnologia nos proporciona rever esses tesouros, Vai lá mané! Aproveita!  Benny Goodman foi um ícone, um mestre. Venceu barreiras geográficas e raciais deixando-nos como legado sua maravilhosa obra. Sem dúvida um dos reis do Swing, o rei do clarinete! Valeu Benny!

Acesse no Youtube:
http://br.youtube.com/watch?v=Dh93540ymaY&feature=related

http://br.youtube.com/watch?v=3mJ4dpNal_k

6

de
dezembro

Comovente Selvageria

A idéia era ir a algum lugar que julgássemos excêntrico, para dali coletarmos algum episódio inusitado, que pudesse ser rememorado em sala, onde o descreveríamos, atentando para aspectos tanto concretos, quanto abstratos. Com isto seriamos avaliados quanto à capacidade que temos de narrar com propriedade sobre um fato.

Entretanto, surpresas são surpresas e, normalmente, não ocorrem quando procuramos por elas. Alguns autores têm o olhar cirúrgico de um bisturi, sendo capazes de fender o tecido do cotidiano, descortinando nuances que nós, meros mortais, não podemos enxergar.

Tentei incorporar um desses autores, para a ocasião, já que nada curioso atravessara meu caminho. Como era de se esperar, não consegui. Ainda assim relatei a aventura de uma menininha que “brigava” com um prato de churrasco na feira central. Um jantar interessante, com lances dignos de uma narrativa excêntrica, como esta.

Era ela, uma menina de uns cinco anos, loirinha, de olhos azuis translúcidos e uma pele de Lucíola, “que parecia querer se desfazer ao menor sopro, como os tênues vapores da alvorada”, como tão bem nos descreve José de Alencar, em seu excelente romance.

A menina, embora acompanhada dos pais e de um irmãozinho – este um pouco mais velho –, lutava sozinha para ingerir os pedaços de carne, cortados em pedacinhos no seu prato.

Ela estava sentada numa daquelas cadeiras próprias para a sua idade e estatura e segurava o garfo como um bárbaro, mastigando despreocupadamente.

O interessante foi observar o ritual que se tornou aquele jantar, já que, tão logo a garota engolia um naco da carne, já se concentrava para “capturar” o seguinte, tendo de se empenhar muito, pois que sua coordenação motora ainda não lhe permitia certas manobras, indispensáveis à uma sobrevivência razoável. Seus movimentos tinham de ser meticulosamente calculados, para só aí serem executados.

Ela segurava o garfo bem apertado, de um modo nada elegante, com sua ponta saindo pelo lado inferior da mão fechada. E com o olhar concentrado no conteúdo do prato, investia contra aquela que seria sua “vítima”. Mas investia com cautela. Baixava o garfo lentamente, ajustando-o em direção ao alvo a todo momento, já que sua mão insistia em desviar-se do curso.

Depois de alguns momentos, e muito esforço, ela conseguia o delicioso feito, cujo triunfo era o prazer indescritível de forrar o estômago.

Uma vez presa à ponta do garfo, a carne era içada a sua boca, sendo este um momento um tanto perigoso. Mas ela era dedicada, não permitindo que a carne, uma vez fisgada, escapasse do seu nobre destino. Então mastigava, orgulhosa.

Chego a supor que sua mãe teria lhe dito que uma mocinha não pede ajuda para comer. Como ela devia achar bonito ser uma mocinha, decidiu abster-se dos auxílios maternos, “se virando” sozinha, como uma adolescente.

Isto para alegria da mãe que, pelo olhar vago e apagado, parecia não se preocupar muito com a família. Quanto ao pai; este parecia ainda mais distante.

O bonito da cena toda é que a carne estava levemente untada em farofa. Como o rosto da menina estava todo lambuzado de gordura, ficou tomado por aquela farofa, transformando um mero jantar, em um verdadeiro espetáculo.

Fiquei imaginando que escândalos ela não provocaria, se dali a dez anos inventasse de se comportar de modo semelhante, desacatando as mais elementares regras de etiqueta. Certamente que seria expulsa pelos amigos, ou percebesse que os mesmos se afastariam.

Permaneci observando, enquanto tomava algumas cervejas. Ela continuou na mesma determinação, até que, finalmente, deu por encerrada a fatigante tarefa, deixando para trás somente dois ou três “sobreviventes” no prato.

E então, radiante, ela pegou o copo de coca-cola que a aguardava ao lado, colocou o canudo na boca de uma maneira absolutamente descompromissada, apoiou-se no encosto da cadeira e, exausta e feliz, ingeriu o precioso líquido, olhando para o infinito, com a expressão sossegada e satisfeita de quem acabou de retornar de um safári.

2

de
dezembro

Uma rodoviária deveria ser

Uma rodoviária deveria ser um lugar
Compreendido entre o ônibus de que se sai
E a cidade a que se chega
Cercado de paisagens acolhedoras
Onde os viajantes
Adornados do misticismo próprio dos aventureiros
Circulariam meio que desencontrados
À procura daqueles que os esperam

Ou o contrário

Deveria ser o lugar
Compreendido entre o ônibus em que se vai
E a cidade da qual se despede

Uma rodoviária deveria ser um lugar
Onde as distâncias se juntassem
E as proximidades se separassem
Onde o tempo se extraviasse

Mas não

Na rodoviária de Campo Grande
A gente se sente desamparado
A gente se sente
Como se fizesse parte
Da sua arquitetura poluída

Na rodoviária de Campo Grande
A gente quase não se sente
Ou se sente
Ausente
Como que numa cidade que não é mais

Uma cidade de casarios tristes
De flores mortas
De vida gasta

Uma cidade de pessoas destruídas

2

de
dezembro

Tragicrônica urbana sobre uma anormalidade banal

Normalmente, ao nos depararmos com uma história verídica, nos ocorre que ela seria inconcebível se tivesse sido fantasiada pela mente de alguém. Isto porque a realidade
é, em grande parte, absurda mesmo. De modo que, para darmos uma tez crível a um fato testemunhado, não raro precisamos, antes, torná-lo verossímil.

A rodoviária de Campo Grande é interessante por aquilo que tem de pitoresco, de prosaico. Basta ficarmos alguns minutos circulando em seu entorno para testemunharmos algum episódio caricaturesco, de rara comicidade. Para não falarmos do aspecto trágico.

Os bares, que existem aos montes em volta desse lugar tão ímpar, são legítimos mananciais para a colheita de absurdos, que ocorrem aos montes a quase todo momento e são lamentávelmente desperdiçados pela nossa literatura.

Não precisei de dez minutos de passeio para perceber um estranho trio sentado em um dos
“botecos”, de onde supus sairia algum acontecimento digno de nota. Não sei se acertei.

Eram uma mulher e dois “caras”. O aparentemente mais novo dos dois homens era acentuadamente magro e devia contar pouco mais de umas 30 tumultuadas primaveras. Ele apresentava um aspecto exausto, com a pele gretada pela aridez de sucessivas intempéries e quase enrugada devido às cavidades do rosto, mas mantinha um olhar afiado e uma postura desafiadora, como se a vida é que tivesse de ficar atenta a ele e não o contrário. O
homem gentilmente dirigia à mulher algumas palavras , embora com freqüência nelas tropeçasse; tanto por conta de um estado de generosa embriagues - que forçosamente dissimulava -, como pela escassez de recursos vocabulários. O motivo de toda gentileza
se devia ao fato de ele tentar convencê-la a irem para o hotel situado na esquina oposta, de frente para o bar.

A mulher trazia uma aparência tranqüila, de uns 50 bem-conservados anos. Atrevo-me a dizer sobre ela, que não tinha nem vocação para um lupanar, tampouco predisposições canônicas. Seus olhos mornos eram dignos dos que se conformam e mantinha a expressão animada, particular aos crédulos. Olhava e escutava seu interlocutor com significativo
interesse, como se estivesse pronta para se deixar convencer pelos seus anêmicos argumentos.

O terceiro personagem permanecia sorumbático, visivelmente constrangido, como se meditasse sobre algo ou, antes, remoesse alguma indignação. Pelo jeito ele não via oportunidade de furar o bloqueio verbal que o isolava dos outros dois e por isto
porejava certa fúria turvada a desgosto. Enfim, parecia haver reconhecido perder a laboriosa batalha da sedução. Ele devia ter lá seus 40 anos, uma pele flácida e um olhar compenetrado – talvez mais pela imposição da momentânea circunstância do que pela força
do hábito.

O diálogo do enamorado casal permanecia aceso, apesar de não muito quente. Mas lá pelas tantas – e olhe que nem foram tantas assim – a mulher adotou um ar de resolução, fazendo que sim com a cabeça, obviamente concordando com o convite recebido.

Ela se levantou e, já saindo, disse ao que ficava que cuidasse de sua bolsa, uma vez que não se demoraria. Mas este se “queimou” e nas poucas e quase proféticas palavras que pronunciou, deixou nítido seu desconforto com o desdobramento inesperado daquele minúsculo diálogo.

– Tô de olho em vocês – foi só o que, raivosamente, conseguiu exprimir.

A mulher, não gostando da gravidade daquele tom ameaçador, bruscamente voltou-se para pegar a bolsa e levá-la consigo.

Enquanto os dois estavam nessa, o que fora contemplado pela caridade da dama se levantou, rumando para o lado dos hotéis. E se me refiro ao hotel no plural é por ter percebido que o sujeito avistava mais de um no lugar daquele, e provavelmente
os divisasse embaralhados num complexo amontoado de esquinas móveis, balançando-se
como barcos que estivessem ancorados no Porto dos Vendavais tempestuosos.

Ocorreu que o coitado, ao se persuadir quanto da impossibilidade de manter o corpo aprumado, inclinou-o violentamente para a frente e, sem olhar para os lados da rua, iniciou a dolorosa travessia. Levantava os pés de um modo absolutamente anômalo, como se não quisesse correr o risco de tropeçar na rua bamba, que insistia em enroscar-se nas
desordenadas pernas. E parecia que, numa conjugação de inúteis e desmesurados esforços, tentava traçar uma linha imaginária diante dos olhos e a ela buscasse manter a fidelidade dos passos. Não sei se a linha imaginada estava enviesada como seus olhos, mas por mais que ele se esforçasse, seus pés sempre se esquivavam – e bota esquivavam nisso – de modo
que para transpor o espaço que uma criatura lúcida venceria em pouco mais de dez passos, ele precisou gastar no mínimo uns cinqüenta.

Nisso a mulher já o olhava. E de repente seus olhos pareceram desolados, como se naquele momento a força da realidade revelasse a eterna condição a que sua vida sempre estivera destinada. Seus braços penderam, com as mãos unidas seguradas à alça da bolsa e ela se limitou a contemplar aquele espetáculo deprimente. Mas passado um instante, novamente
se recompôs. E uma vez constatado que o “namorado” chegara, não são, mas a salvo na entrada do hotel, também seguiu em sua direção. E os dois devem ter tido uma tarde bastante movimentada.

O outro ficou ali, sozinho. O olhar revoltado de antes, agora encontrava-se aguado, exprimindo um tom reflexivo, embora raso. Das exploradas caixas de som do estabelecimento, saia um Amado Batista de voz enrugada.

Newer Posts »

Report abuse Close
Am I a spambot? yes definately
http://quenada.blog.terra.com.br
 
 
 
Thank you Close

Sua denúncia foi enviada.

Em breve estaremos processando seu chamado para tomar as providências necessárias. Esperamos que continue aproveitando o serviço e siga participando do Terra Blog.